Relações Laborais em Contexto Pandémico – Parte I (EBA Sociologia/Lusango – Consultoria para o Desenvolvimento)
Relações Laborais em Contexto Pandémico – Parte I (EBA Sociologia/Lusango – Consultoria para o Desenvolvimento)
Parte I
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“De momento,
não podemos senão especular a respeito do impacto político e económico a longo
prazo. Os historiadores mostram claramente que «uma verdadeira epidemia é um
acontecimento, não uma tendência». Nas palavras do historiador da medicina Charles
Rosenberg, «as epidemias iniciam-se num ponto do tempo, progridem por uma etapa
limitada no espaço e na duração, seguem uma linha de evolução de crescente
tensão reveladora, avançam para uma crise de carácter individual e coletivo, e,
depois seguem à deriva até ao seu término». (…) O mundo sofrerá uma mudança
profunda, não porque as sociedades assim o desejem ou por haver consenso quanto
à direção da mudança, mas porque não será possível voltar atrás”. Ivan Krastev
(2020), O Futuro por Contar – Como a Pandemia vai mudar o nosso Mundo Entre julho e
setembro de 2020, a página Emprego e Bolsas na Área de Sociologia e a Lusango –
Consultoria para o Desenvolvimento promoveram um inquérito online denominado “Relações
Laborais em Contexto Pandémico”. Este questionário inseria-se na mesma linha e
procede o inquérito anterior apelidado de “Riscos Sociais – Cenários
Pandémicos”. O principal
objetivo deste questionário foi o de prosseguir a sequência de estudos em
continuidade sobre os efeitos da Pandemia num cenário social marcado pela
incerteza, pela complexidade e pela dificuldade em apontar caminhos, alternativas
e estratégias. Em termos
específicos, procurava aferir, mediante a apresentação de diferentes situações
sociais, decalcadas da realidade laboral, a forma como nos posicionamos perante
as atitudes dos/as trabalhadores/as e das entidades empregadoras no âmbito das
relações laborais. Embora apresentadas como situações individuais, por serem
vivenciadas por muitos, é a lógica coletiva que está presente Sabendo que na
base das nossas escolhas estão, também, as nossas perceções, procurou-se,
também, aferir de que forma o contexto pandémico, mais do que gerar mudanças,
agravou a ameaça e a incerteza que sempre caracterizaram a esfera do trabalho. Embora
estivéssemos à espera de uma participação maior, congratulamo-nos que este
inquérito tenha possibilitado a obtenção de 102 questionários validados. Em termos de género, 62,7% de respostas vieram de mulheres e 37,3% de homens. Relativamente à idade, a maior parte dos inquiridos situa-se na casa dos 36-45 anos (33,3%), seguindo-se os que estão entre os 46-55 anos (21,6%) e os que têm uma idade compreendida entre os 26 os 35 anos de idade (19,6%). Gráfico 1 - Género Gráfico 2 - Idades Em termos de
nacionalidade (considerando, mais uma vez, a opção pela nacionalidade ou pelo
país onde se vive há mais tempo), a grande maioria das respostas é de Portugal,
seguindo-se Angola e o Brasil (sendo, aliás, os países onde esta página têm
mais seguidores/as). Salienta-se, também, a obtenção de respostas oriundas de
outros países, nomeadamente Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe,
Guiné-Bissau, Espanha, Reino Unido, Macau (China) e Arábia Saudita. |
Seguidamente,
foram apresentadas algumas situações, vividas ou relacionadas diretamente com o
contexto laboral, onde os principais intervenientes eram sempre um/a
trabalhador/a e a respetiva entidade laboral. Através de uma Escala de Likert,
os/as inquiridos/as tinham que assinalar o seu grau de concordância relativamente
à atitude do/a trabalhador/a e à atitude da entidade laboral. Note-se, mais uma
vez, que todas estas 10 situações apresentadas foram “decalcadas” da realidade
que presenciamos atualmente.
Foram
apresentadas as seguintes situações:
“Situação 1
Rita trabalha
numa empresa que entrou em Lay-off por causa da Pandemia e que esteve fechada
devido ao confinamento obrigatório. Ao voltar ao trabalho, Rita iria gozar as
suas férias, que já estavam marcadas, dentro de alguns dias. A empresa diz-lhe
que isso não seria possível e que teria de gozar as suas férias mais tarde,
pois se não estivessem todos as pessoas a trabalhar a empresa corria o risco de
ir à falência. A empresa diz que é necessário o sacrifício de todos. Rita
decide adiar as suas férias. Até que medida concorda:
Com a atitude
de Rita
Com a atitude
da empresa”
Gráfico 4 - Situação 1
A questão de
um/a trabalhador/a ter de adiar as suas férias no período pós-confinamento
(particularmente em Portugal, visto que outros países optaram por medidas
diferenciadas) tornou-se uma situação recorrente. Neste caso, a empresa pede
diretamente à trabalhadora (Rita) para que ela adie as suas férias, visto que a
empresa corria o risco de ir à falência caso todos os/as trabalhadores/as não estivessem
ao serviço. A trabalhadora opta por adiar as férias.
Nesta situação,
a maior parte das respostas tendeu para concordar (Concordo e Concordo Muito)
com a atitude de Rita, sendo pouca expressivas as respostas com opiniões contrárias.
Relativamente à atitude da empresa, embora com menos consensualidade, a maior
parte dos/as inquiridos/as também concordou. O tratar-se de uma situação excecional
e o facto de a empresa lhe pedir para adiar as férias (não que ela deixaria de
as gozar) explicam, parcialmente, esta visão. Contudo, sendo a sobrevivência da
empresa que está em causa e, logo, a manutenção dos postos de trabalho, a
lógica tendeu para um maior grau de concordância entre a trabalhadora e a
entidade empregadora.
“Situação 2
Carlos trabalha
no armazém de uma empresa que teve de despedir os seus dois colegas de trabalho
devido à crise originada pela pandemia (perda de clientes, dificuldades em
pagar salários e outras despesas, etc.). Carlos repara que o número de clientes
diminuiu, mas que para o trabalho no armazém é necessário mais do que uma
pessoa. Fala sobre isso ao seu Chefe, responsável pela empresa, mas este diz
que não têm como contratar mais ninguém e que teria mesmo de ser ele a fazer
todo o trabalho. O Chefe diz-lhe que se não quisesse fazer o trabalho podia
ir-se embora, pois não faltavam pessoas a querer trabalhar. Carlos aceita
trabalhar nessas condições.
Até que medida
concorda:
Com a atitude
de Carlos
Com a atitude do
Chefe“
Nesta situação,
o trabalhador (Carlos) vê-se perante o aumento do seu volume de trabalho devido
ao facto de dois dos seus colegas terem sido despedidos em virtude da pandemia.
Embora Carlos não tenha como fazer todo o trabalho, visto que não compete a apenas
a uma pessoa (sendo evidente a exploração laboral, a par do que isso acarreta
em termos de desgaste físico e psicológico) o Chefe recusa-se em contratar mais
alguém e “ameaça-o” com o despedimento, pois seria facilmente substituído. Não
obstante este cenário, Carlos opta por continuar na empresa.
Perante a “escolha”
de Carlos, existe uma distribuição equitativa nas respostas, evidente, aliás,
na opção que foi mais assinalada (Não concordo, nem discordo). O receio de
perder o emprego, agravado pelo contexto de incerteza que vivenciamos, explica em
parte esta visão. De facto, esta é, aliás, uma situação comum no mercado
laboral. A aceitação torna-se uma subjugação ancorada pela incerteza e pelo
risco. Por sua vez, o risco e a incerteza desembocam numa “não escolha” ou num
dilema - embora a realidade laboral que enfrenta seja má, perder o emprego
neste contexto é pior ainda. Relativamente ao Chefe, a maior parte dos/as
inquiridos/as discorda da atitude do Chefe, sendo pouco significativas as
respostas que manifestam uma opinião contrária. Nesta situação, o grau de
concordância (existente ou possível) entre o trabalhador e entidade laboral é
totalmente inexistente.
“Situação 3
Ana trabalha
como administrativa numa empresa que teve de encerrar as instalações por causa
da quarentena. A empresa comunicou que alguns trabalhadores ficariam em
teletrabalho (ou seja, a trabalhar e a receber o salário por inteiro) e outros
estariam numa situação de Lay-off (ou seja, com o
contrato suspenso e 70% do salário a ser pago pelo Estado). A empresa
comunicou a Ana que ela estaria em teletrabalho. Ana continuou a desempenhar as
suas funções a partir de casa. Contudo, quando foi ver o seu extrato bancário,
reparou que o montante depositado era menor (ou seja, correspondia ao valor a
ser pago a um trabalhador em Lay-off). Ana comunicou à empresa. A empresa
respondeu-lhe que tinham optado por manter todos os trabalhadores em Lay-off
porque não tinham como lhes assegurar os salários. Ana informou-lhes que se não
lhe repusessem o valor por inteiro teria de fazer queixa às entidades
competentes.
Até que medida
concorda:
Com a atitude
de Ana
Com a atitude
da empresa”
Na Situação 3,
a trabalhadora (Ana) vê-se confrontada com o facto de a empresa onde trabalha
não estar a cumprir com o que lhe haviam comunicado (ou seja, não estava em
teletrabalho, mas em Lay-off e, por consequência, a auferir uma remuneração menor).
A trabalhadora adverte a entidade laboral que, caso não lhe repusessem o valor
total do salário, comunicaria à Segurança Social.
Perante esta
situação, bastante comum, aliás, a maior parte dos/as inquiridos/as concorda (sublinhe-se,
Concorda Muito) com a atitude da trabalhadora. No sentido inverso, a maior parte
discorda da atitude da empresa. De facto, a falta de coerência e de
transparência na forma como as decisões foram (são) comunicadas (ou não) aos/às
trabalhadores/as, muitas vezes sem nenhuma explicação apresentada, constitui um
dos principais focos de conflito nas relações laborais. Também neste caso, o
grau de consenso entre trabalhadora e empresa é inexistente.
(Cont.)
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