Estudantes dos PALOP em Portugal: Caso Coimbra, por Hector Costa



Hector Afonso Costa (Portugal/São Tomé e Príncipe) vive em Coimbra. É Licenciado e Mestre em Sociologia pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Pós-graduado em Território, Risco e Políticas Públicas pelo IIIUC - Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra e Doutorando pela mesma instituição. Fez investigação no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e é professor de Educação Moral Religiosa Católica no Agrupamento de Escolas Coimbra Centro.

1- Estudantes dos PALOP na Universidade de Coimbra


Portugal tem vindo, desde 1975, a receber nas suas universidades estudantes de países africanos de língua oficial portuguesa que se inscrevem em cursos superiores, pós-graduações, mestrados e doutoramentos. Estes estudantes têm ao seu dispor vagas nas instituições do ensino superior portuguesas, no âmbito do regime especial de acesso ao ensino superior. Este regime isenta os estudantes de realizar os exames nacionais de ensino secundário para efeitos de nota de acesso ao ensino superior.    Os estudantes naturais dos PALOP são a população principal, de maneira que 80% das vagas são ocupadas ao abrigo deste regime especial previsto na lei portuguesa que permite que umas máximas de 10% das vagas por curso sejam destinadas a estes estudantes.
De acordo com os dados estatísticos do ministério da ciência, tecnologia e do ensino superior, relativa ao ano letivo de 2007/2008, os estudantes angolanos foram os mais representados desse conjunto de países, com uma população de 4648 estudantes, em segundo lugar vinha Cabo Verde, com uma população de 3844 estudantes, Moçambique 983 estudantes, S.Tomé e Príncipe 644, Guiné-Bissau 318 estudantes. Ou seja, o total de estudantes dos PALOP inscritos nas Universidades portuguesas no ano letivo de 2007/2008 foi de 13428.
A Universidade de Coimbra faz parte de um conjunto de instituições de ensino superior em Portugal que, tradicionalmente acolhe a população estudantil dos PALOP.
A Universidade de Coimbra está sedeada na cidade de Coimbra, é a mais antiga Universidade portuguesa e a terceira mais antiga de toda Europa.
A instituição, uma das maiores do país, remonta ao século seguinte ao da própria fundação da nação portuguesa, pois foi criada no século XIII, em 1290 por D. Dinis.
Hoje, a Universidade de Coimbra, conta com oito Faculdades (Letras, Direito, Medicina, Ciências e Tecnologia, Farmácia, Economia, Psicologia e Ciências da Educação, Ciências do Desporto e Educação Física) e cerca de 22 mil alunos. Sendo 18.228 estudantes de Licenciatura, 551 estudantes de pós-graduação e 1.102 estudantes nos cursos de mestrados.
Esta instituição tem vindo a apresentar, tendências recentes de abertura e democratização, bem como, uma tendência para a regionalização (Estanque e Nunes, 2006). Pois, vinte e dois por cento dos estudantes da UC são recrutados no concelho de Coimbra; 12,8 por cento nos restantes concelhos do distrito; 28,2 por cento nos restantes concelhos da Região Centro (Estanque e Nunes, 2006). Assim, 63 por cento da população estudantil é originária desta região do país, enquanto 37,7 por cento é oriunda de outras regiões do país; 3.1 por cento são dos PALOP e 2.1 por cento de outros países (Estanque e Nunes, 2006).
Os estudantes dos PALOP também representam uma população bastante significativa no universo dos estudantes que partilham este espaço físico e social, com uma população numérica de mais 500 estudantes, divididos pelas diferentes Faculdades e cursos de licenciatura, pós-graduação, mestrado e doutoramento.
 Vêm de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e S.Tomé e Príncipe, à procura de mais e melhor formação, procuram em Portugal, o grau académico que não podem obter nos países de origem.

1.1-Dificuldades dos estudantes dos PALOP em Coimbra


Os fluxos migratórios dos estudantes, particularmente, dos PALOP para Universidade de Coimbra, ainda continuam intenso, não obstante o aparecimento de uma pluralidade de instituições universitárias e superiores nestes países que têm oferecido cursos para obtenção de credencial universitário ou superior.
Estes fluxos estão em envolto de algumas assimetrias em termos de género dos estudantes, bem como a origem geográfica dos mesmos. Isto é, o universo desta população é dominado por rapazes, quanto a nacionalidade, os cabo-verdianos são a maioria, em segundo lugar os angolanos, depois segue-se os são-tomenses, guineenses e moçambicanos.
No que diz respeito à distribuição por Faculdades, é nas Faculdades de Ciência e Tecnologia, Direito, Economia, Medicina, que está concentrada uma grande parte dos estudantes dos PALOP. Porém, não nos basta refletir apenas sobre os fluxos, importa-nos sim, refletir também sobre a persistência ou a existência de um conjunto de fatores insustentáveis, que têm condicionado a estabilidade socioeconómica destes estudantes em Portugal, neste caso, em Coimbra, e que, tem dificultado de certa forma, o sucesso académico e a integração dos mesmos na dinâmica da comunidade e da cidade.
Esta população estudantil, como já tinha dito anteriormente, veio para Portugal, neste caso para Coimbra, ao abrigo das vagas atribuídas anualmente aos países africanos da língua oficial portuguesa.  Muitos não têm bolsa de estudo quer do Estado que lhes concedeu à vaga, quer do seu próprio País de origem. Mesmo os que têm bolsa de estudo, não estão livres dos fatores insustentáveis, porque, por um lado, em alguns casos, a bolsa chega muito atrasada e é muito insuficiente, dada a complexidade do contexto atual, onde as propinas estão cada vez mais caras, acompanhadas da subida do custo de vida (aluguer do quarto, transporte, materiais didáticos etc.). Só a título de exemplo, um estudante da Universidade de Coimbra gasta em média, mais de cinco mil euros por ano, cerca de 600 euros por mês (JEEFEUC, 2008).
Este valor é contrastante com o valor da bolsa/subsídio, pois, um estudante recebe em média, cerca de 4200 euros por ano.
Em alguns casos, não podem perder o ano, pois, perdido o 1º ano, os alunos perdem também a bolsa de estudo. E vêm-se obrigados a recorrer ao trabalho em part-time, que não raras vezes prejudica os estudos, para por um lado, colmatar as dificuldades financeiras e, por outro lado, para poder custear os seus estudos.
 Ainda como agravante, o emprego com visto de residência para estudo está muito difícil de conseguir. Pois nem todos os títulos de residência concedidos aos estudantes estrangeiros os permitem trabalhar.
De acordo com a Lei que regula o trabalho de estudantes estrangeiros, esta obriga-os a pedir autorização ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) para trabalhar (art. 88º). Esta autorização só é dada se o estudante tiver já um contrato de trabalho previamente apresentado na Inspeção-geral do Trabalho e, como as duas licenças se requerem uma à outra ao mesmo tempo, os estudantes dificilmente arranjam emprego.
E isso faz com que na maior parte das vezes, os estudantes ficam entregues à sua sorte e a lutar pela sobrevivência. Pois, por um lado, as redes criadas por estes estudantes, que são em muitos casos, constituídas por amigos, elementos da família alargada ou antigos colegas, não lhes conseguem dar um suporte económico e emocional sistemático.
 Por outro lado, não existem na Universidade de Coimbra, políticas de apoios sustentáveis, que visem atenuar objetivamente as carências financeiras destes estudantes. Embora exista nos SAUC, alguns apoios pontuais abrangentes a esta população.
Segundo os SASUC, só podem candidatar à atribuição de bolsas de estudo, estudantes portugueses e os nacionais dos estados membros da Comunidade Europeia que estejam em situação de carências financeiras.
Portanto, neste caso, os estudantes dos PALOP, estão fora deste contrato social, ou seja, não têm acesso à cidadania. Esta restrição é transversal ao mercado de trabalho, onde se assiste uma espécie do “apartheid social”. Pois, se olharmos às paisagens sociais dos grandes Centros Comercias, iremos constatar que, por um lado, existe uma seleção racial e nacionalista dos colaboradores que trabalham nos alguns ramos, como por exemplo, lojas de roupas etc. E por outro lado, no ramo de restauração/cafetaria, assistimos uma grande presença dos estudantes estrangeiros, nomeadamente, africanos, pois, os cidadãos nacionais são poucos recetivos a estes ramos de atividades. De maneira que, os estudantes dos PALOP são chamados para ocuparem estes postos de trabalho. Esta população trabalha em muitos casos informalmente, sem contrato de trabalho, não fazem qualquer tipo de descontos, em suma, ficam desprovidos de qualquer proteção social. Pois, as empresas aproveitam às fragilidades sociais destes estudantes, para os explorar, em termo de mão- de-obra- barata.
Portanto, diante destas dificuldades, os estudantes ficam sem tempo para estudar, para pensar, para refletir. Prova disto, é a existência de um grande número de estudantes repetentes que nunca conseguem acabar os seus cursos.
Tal como os imigrantes económicos, os estudantes dos PALOP também apresentam muitas vulnerabilidades sociais e económicas, porque são enviados para estudar num país, neste caso, numa Universidade que acolhe e integra deficientemente os estudantes internacionais, sobretudo, os oriundos dos países em via de desenvolvimento, como é o caso dos PALOP.

 Hector Costa


2- Bibliografia:


       Desidério, J. Edilma (2006), “Migração Internacional Com Fins de Estudo: O Caso Dos Africanos do Programa Estudante – Convénio De Graduação Em Três Universidades Públicas No Rio de Janeiro”, Dissertação De Mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais. IBGE – Instituto Brasileiro De Geografia e Estatística e ENCE – Escola Nacional de Ciências Estatísticas.
           Estanque, Elísio; Nunes, João Arriscado (2006), “Os Estudantes da Universidade de Coimbra: Massificação, Feminização e Défice de Associativismo”, in Oficina dos Saberes. Rua Larga: Revista da Reitoria da Universidade de Coimbra.
          Hart, K (1973), “Informal Income Opportunities and Urban Employment in Ghana”, the journal of Modern African Studies, 23 de Janeiro, pp 61-89.
           MCTES – Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (2008), Inquérito estatístico aos alunos diplomados e matriculados do ensino superior.
          Santos, Boa Ventura de Sousa(2001) “ Os fascismos sociais”, in B.S.Santos, A cor do tempo quando foge. Crónicas 1985-2000. Porto: Afrontamento, pp.344-346.
Silva, Pedro Duarte (2005), A Protecção Social da Populção Imigrante: Estudo Comparado e Proposta de reforço .Acime(Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas.




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