Entrevista ao Dr. Helder Bahu por Paul Philips, Promoção e estudo das atividades científicas em Angola

Helder Bahu

Dr. Helder Bahu
Coordenador do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Educação
Coordenador do Mestrado em Ensino da História de África
ISCED Huíla - Lubango

ESTA ENTREVISTA INSERE-SE NUM PROJETO DE CONSTITUIÇÃO DE UMA REDE DE DIVULGAÇÃO E DINAMIZAÇÃO DE ATIVIDADES DE PESQUISA CIENTÍFICA EM ANGOLA (Paul Philips e Ricardo M Marques)

REDE DE ATIVIDADES DE PESQUISA CIENTÍFICA EM ANGOLAEntrevista de Paul Philips (17/09/2019)



1.   - Na sua opinião quais são as características da atual situação da pesquisa científica em Angola e no seu instituto?
- Em relação à pesquisa científica (PC) em Angola, e no meu instituto em particular, posso dizer que é preocupante. Há uma incipiente produção científica. Temos de ter em conta que estamos a falar de uma Universidade e, daí os trabalhos que cada um dos professores na condição de investigadores deve fazer. Estamos muito longe daquilo que é expectável. Neste momento  estamos a falar do interior do “Centro de Investigação e Desenvolvimento da Educação”, que é do ISCED-Huíla, uma instituição que desenvolve alguns trabalhos. Entretanto, se olharmos para este grande universo que é o ISCED-Huíla e a província da Huíla, posso dizer que estamos a fazer muito pouco. Há poucas pessoas dedicadas e com vontade de fazer alguma coisa em prol da investigação Científica. Apresentam-se várias razões para não se fazer PC, mas nem todas as razões deveriam ser efetivas para esse processo.
Há vários segmentos de pesquisa. Há aquelas pesquisas que, como sabemos, são muito onerosas. Requerem materiais apropriados e laboratórios para que se possa desenvolver esse processo com mais profundidade. É verdade. Mas,  nas áreas sociais, mesmo ao nível das ciências de educação, em que  precisamos de recursos poucos recursos, pode-se fazer muito mais. Portanto, quando há na cidade grandes deslocações das zonas rurais para o centro da cidade,problemas de transporte, alojamento, alimentação...  cá dentro é possível, se incentivarmos os nossos estudantes a participar dos processos de recolha de informação aumentar a produção científica e treinar futuros pesquisadores. Estamos a fazer muito pouco, mesmo. Estamos muito  abaixo do termo ‘pouco’ em relação a esse processo.
2.  - Na sua opinião existem diferenças nas várias zonas académicas de Angola, ou a situação em geral é mais ou menos parecida ?
Posso dizer que a situação em geral é parecida. Agora podemos destacar algumas instituições completamente diferentes nesse processo. Temos a Universidade Católica de Angola, por exemplo, que integra vários centros que também contam com algum financiamento. Têm quadros muitos experimentados nas diversas áreas do saber, principalmente nas áreas económicas que, de certa forma, se conseguem integrar muito bem com as áreas sociais. Nos relatórios  apresentados pela Universidade Católica há, de facto, alguma produção que se destaca comparativamente com as outras instituições.
3.    Internacional ? Ou sobretudo nacional?
 - A nível internacional a Universidade Católica acaba também por ter algum protagonismo há já alguns anos. A referida Universidade  ficou bem posicionada no ranking das universidades africanas.  Portanto, hoje é a única instituição que pode se destacar a nível de Angola. Agora temos algumas figuras que, individualmente, em função da sua ligação com as instituições em que eles estudaram, seja na Europa, América, na Ásia ou noutros contextos, ainda desenvolvem alguma pesquisa. Para além dos colegas dessas instituições, tudo é muito incipiente. Tem sempre a ver com aquilo que é o projeto pessoal dum indivíduo e o projeto da instituição com a qual mantem alguma ligação pelo facto de lá ter estudado. Capitalizando os acordos de cooperação que existem entre o ISCED-Huíla e outras instituições,  neste momento tenho em desenvolvimento um projeto sobre literacia digital na qual pretendemos recolher dados de algumas escolas aqui do município do Lubango, se as crianças usam o computador e a Internet e, com que frequência? Estamos a falar do ensino secundário ou ensino médio. Nesse segmento, estamos a desenvolver esse projeto com o NIP-C@M – Núcleo de Investigação em Práticas & Competências Mediáticas (Universidade Autónoma de Lisboa). Mas (cá está!) esta ligação com a Universidade Autónoma de Lisboa está relacionada com o facto de ter lá feito lá uma formação, de conhecer pessoas e manter esta ligação com as mesmas e dar um carácter institucional aos referidos projetos. Não é sempre o caso. Só para dar esse exemplo. Há alguma pesquisa que consegue ter algum seguimento, mas está apenas relacionada com essas ligações. Por exemplo, o CIDE já desenvolveu dois estudos de grande realce. Um é  sobre as crianças fora do sistema de ensino ou em risco de abandono escolar. Foi um projeto financiado pelo UNICEF e, em pouco tempo, também apresentámos também a Carta Escolar da Província da Huíla, outro projeto financiado pela mesma instituição. A Carta Escolar da Província da Huíla produziu uma grande diversidade de dados que podem proporcionar várias linhas de investigação e inferências que numa perspectiva interdisciplinar resultariam em vários artigos.. Infelizmente, enquanto há um grupo/segmento bastante grande a trabalhar neste sentido, há imensa gente que não está para aí focada.
Além de questões salariais,  carga horária excessiva e colaboração noutras instituições (principalmente privadas), não sobra tempo, nem lucidez suficientes para poder pensar em investigação. São opções de cada um, entretanto, as  políticas do Estado em termos de promoção da investigação também não são suficientemente robustas para o cumprimento deste desiderato. Estamos a investir pouco na investigação científica e em termos de promoção na carreira há uma incipiente pressão para que um individuo ascenda de categoria com alguma publicação. O que se exige, por exemplo, a um professor catedrático é muito pouco para aquilo que se pretende ser a dimensão de professor que atinja este grau.
Outro ponto de estrangulamento do ensino superior está relacionado com o facto de as exigências serem relativamente baixas em termos de candidatura a docente numa universidade. A fraca exigência em termos de acesso e os baixos salários fazem com que indivíduos menos qualificados, buscando algum estatuto social, aventurem-se a concorrer para a carreira docente na universidade. São indivíduos que não pensam a universidade na dimensão da diversidade de conhecimentos, produção científica regular e extensão universitária.
Se o acesso à universidade fosse mais rigoroso e os incentivos financeiros aceitáveis, garantir-se-ia uma seleção de docentes e investigadores mais ajustados aos objetivos de qualquer universidade, a qualidade e o acesso a rankings aceitáveis.
Por outro lado, um outro detalhe que também não concordo, é a tentativa de angolanização das vagas. Quando estamos a pensar numa universidade pensamos numa diversidade em que conta, de facto, o currículo do indivíduo que se candidata. Quando tu colocas logo, no conjunto das exigências, que só devem concorrer cidadãos nacionais/angolanos estamos a fechar cada vez mais a possibilidade de interação de diferentes culturas e conhecimentos. Poder-se-ia, se fosse o caso, atribuir-se uma quota para estrangeiros ter-se-ia uma universidade mais competitiva.. Para quem viajou ou viaja por esse mundo visitando universidades, encontra professores de vários quadrantes. Isso deveria ser mais aberto.
Outra questão para nós na universidade, tanto em Angola, quanto na nossa região, é o fraco domínio de inglês e francês. Estamos aqui numa “ilha”, porque fazemos fronteira com vários países de expressão Inglesa ou francesa nos quais existe uma produção científica bastante aceitável que poderia proporcionar um intercâmbio mais consistente entre estudantes e pesquisadores da região com um sistema Erasmus funcional. Essa falta de circulação de estudantes, de docentes e a grande barreira linguística também não ajudam. Eu estudei em Portugal e é muito interessante ter as aulas em português/inglês e a maior parte do material estar em Inglês. Isto dá a possibilidade de ter um horizonte muito mais abrangente. Mas em Angola temos esta dificuldade. Temos que investir um pouco mais no inglês e no francês, de tal maneira que possamos contactar facilmente um estudante, um investigador, um professor numa outra dimensão..
Esses são basicamente os pontos de estrangulamento que identifico. Agora também podemos pensar naquilo que eu chamo de turismo científico e modificar  o olhar das pessoas. Um investigador é um indivíduo curioso que transforma qualquer lugar numa espécie de terreno. Sentar-se numa praça ou junto de uma lavra,  contactar com pessoas, há sempre qualquer coisa que se pode filmar, fotografar, gravar ou tirar algumas notas. Esta perspectiva de ter um olhar mais afinado e atento com um alcance que permita observar para além do observável é muito importante para absorver o máximo de informação e alavancar a produção científica.
4.    - Então há uma grande variedade de factores que caracterizam a situação atual.
-Também estamos a vir de uma situação (não gosto de falar sobre isso, porque não é uma justificação para tudo), que é a guerra. A guerra também asfixiou um pouco as pessoas. Fazer uma pesquisa podia ser  mal interpretado, por exemplo, se for feita em alguma aldeia distante. Iniciar, querer gravar a pessoa… fica sempre aquela situação do gravador revelar algum  segredo  que vai prejudicar as pessoas. Mesmo em relação à realidade no terreno, uma pessoa quer contribuir, mas pode encontrar obstáculos por receios de apresentar alguns testemunhos. Trata-se de uma sociedade de receios vários onde impera a desconfiança. Essas suspeitas fazem com que quem quer tomar alguma iniciativa também se retraia porque precisa de  autorizações várias. Tem que explicar muita coisa e ter um gravador passa a ser muito grave.
5.    - Pensando no futuro da PC, acha que precisamos de uma política nacional, ou aqui no instituto, para promover atividades de PC ? Se é o caso, quais seriam as prioridades?
- Eu, não só na área social, sou de opinião que nesta altura se deveria experimentar  Principalmente em relação à segurança, segurança alimentar.  Estamos a trabalhar muito pouco e é um risco muito elevado pois, uma grande quantidade de produtos e medicamentos consumidos não passam por um controlo de qualidade ajustados aos parâmetros internacionais
Assim, para a concretização dos objetivos relativos ao fomento da pesquisa científica é necessário ter um sentimento de pertença; criar prémios; publicitar os melhores estudos; envolver as províncias; definir prioridades; aumentar os recursos; estudar tópicos.

6.   - O contexto de Angola para fazer PC, segundo algumas pessoas, deve ser diferente em relação ao contexto ocidental. É possível criar um contexto para fazer PC tipicamente africano?
- Não concordo muito com essa linha. E não gosto. Há um grupo de neo-panafricanistas. Os resultados da sua pesquisa caminham no sentido de responder à letra ao que foi a colonização e a outros elementos. Eu vou mais numa perspectiva mais abrangente no sentido de pesquisar tópicos de forma desinteressada sem que seja uma resposta ao passado e reavivar o complexo de inferioridade gerado pela colonização. Acho que é um debate um pouco atrasado. Podemos olhar para dentro, mas é impossível  que ela seja feita fora do  panorama internacional. Ainda que seja para desconstruir algumas ideias produzidas por certos teóricos. Do ponto de visto científico, pode-se usar esses elementos para criar e fundamentar uma nova teoria. Agora, separar a pesquisa numa perspectiva dessas, vamos criar aqui processos como estamos a ver na África do Sul, relacionados com a xenofobia. Penso que a ciência não deveria ter  “cor nem pátria”, mas  um produto universal da humanidade em que qualquer indivíduo, de qualquer espaço, respeitando aquilo que ocorre nesse lugar, possa pesquisar e responder àquilo que se encontra.
7.   - Para terminar, gostaria de saber qual seria o melhor caminho a seguir, a partir da atual situação, para promover a PC em Angola ?
- O caminho passa por uma maior disponibilidade e abertura do Estado em termos de políticas nacionais relacionadas com a pesquisa. O próprio Estado, em si, deve abrir mais as portas. Por outro lado, nas instituições universitárias também se começa a colocar a PC como a base de orientação do seu espaço em si. E acontece uma coisa mais importante: os recursos humanos, nessas instituições, começam a trabalhar nesse sentido. É importante que os bons exemplos sejam sentidos por outros e, a partir disso, começar rapidamente a multiplicar o número de pessoas a envolver-se nesse processo. Quer dizer, fazer ver aos indivíduos ligados ao meio académico, ou universitário, que o caminho é esse. Que é assim que deve ser para uma pessoa ser um verdadeiro universitário. Nesse sentido, vamos assistir, em cascata, a mais gente a integrar. Para tal, precisamos de fomentar mais pesquisas científicas, ter acesso a mais espaços para essas publicações. Criar momentos de discussão dessas publicações em vários lugares. Na televisão, na rádio, nos auditórios das universidades, para que os alunos a partir do primeiro ano começam a perceber o que é exatamente uma universidade. E não pensar que uma universidade é apenas lá ir. E que também seja normal que, dentro de uma universidade, que determinados tópicos sejam da especialidade do professor porque é ele que distribui o textos. Mas é necessário que alguns desses textos sejam textos do próprio professor, porque dá um foco mais forte aos próprios estudantes que terão de discutir esses artigos, orgulhar-se do professor, tentar ser como o professor. 

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