MAKAN ANGIN – Comer Vento
Já vai para quase cinco meses desde finais de
Janeiro, quando a epidemia se começou a fazer sentir em Macau.
A última vez que saímos do território foi em
meados de Fevereiro, para ir passar um fim de semana a Hong Kong. Apenas uma
semana depois começavam as quarentenas generalizadas, os voos pararam.
Tornou-se impossível cruzar a fronteira sem estar sujeito a duas semanas de
quarentena no destino e mais outra quinzena de “observação médica” ao regresso.
Isto se houver voos ou outro meio de transporte disponível... o que não se
verifica na maior parte dos casos. Há pessoas retidas há meses nos sítios onde
foram apanhadas ao acaso pela quarentena, algumas delas já enfrentando questões
de subsistência. Portanto, ficou impraticável qualquer saída e o slogan “reduza
as saídas de Macau”, transmitido até à exaustão pelas televisões e pelos
altifalantes da Protecção Civil, passou a ser uma lengalenga sem sentido.
Estivemos meses assim, nem todos fechados em casa
– como aconteceu noutros locais – mas encarcerados num território minúsculo, no
aquário que é Macau. E a verdade é que Macau aguenta-se se pudermos sair.
Estar “semi-confinado” num casino flutuante com
igrejas à proa não é o mesmo do que o estar num país, a não ser que falemos do
Vaticano.
Tem-se nesta região artificiosa e sem espaço
aquela noção de estar proibido de sair da aldeia. Tudo fica “off limits”.
Passam-se meses e meses literalmente na mesma rua. Sente-se uma certa
claustrofobia, falta da estrada.
Os malaios usam a expressão “makan angin”
(literalmente, “comer vento”) para significar o prazer da diletância. E Charles
Baudelaire falava no “horreur du domicile”.
Nestas circunstâncias, estamos por decreto
proibidos de comer vento. Tudo isto não se pode dançar.
Aprendemos que um evento catastrófico pode mudar
estilos de vida não apenas num continente, mas em todo o mundo.
E mudá-lo essencialmente para pior, embora com
inadvertidos aspectos colaterais benéficos, sendo o principal a redução
temporária da poluição do ar nas grandes metrópoles.
Aquele mundo aberto de que podia beneficiar uma
parte crescente da população mundial está agora posto em causa. As inúmeras
possibilidades de viagem que este traz também.
A reclusão forçada é particularmente penosa e
angustiante para os que perderam o ganha-pão ou que ouvem já o zumbir da
guilhotina financeira.
É-o também, embora em menor medida, para aqueles
que são irrequietos por natureza.
Subscreve-se o Netflix, vai-se viajando nos
livros, nos filmes e na imaginação das nossas crianças, na sua mágica
capacidade de ver tudo com olhos novos.
Mas sobrevém uma crescente angústia em relação a este
universo Covid-19 em que nos encontramos subitamente. É um lugar cheio de regras
absurdas, tomado por uma espécie de fascismo sanitário. Prevalece a ideia
totalitária de que o mundo pode parar de rodar (mas não acabam as sabotagens, os
nacionalismos desabridos, o lucro com a tragédia alheia) e que é exigível que
as pessoas se relacionem com “distanciamento social” ad aeternum. Enganou-se quem inicialmente pensou que as restrições
seriam para durar 2 ou 3 semanas, o que seria aceitável e bem intencionado.
O Grande Irmão, na sua omnisciência alimentada por
incontáveis aplicações e outros sistemas de vigilância, sabe o que é melhor
para a tua saúde.
Uma boa parte da população mundial prescindiu mais
ou menos voluntariamente de quase todas as liberdades, acreditando que assim
fazia o melhor por si pelos outros.
Ninguém discute que as autoridades tinham que
actuar para proteger a saúde pública. É uma questão de bom senso. Mas será
possível, como se crê em muitos países, erradicar o vírus? Será possível em
pouco tempo ter zero casos? E, mesmo que isso seja conseguido à custa de mil sacrifícios,
não serão os novos surtos inevitáveis?
É preciso descobrir a equação que evite males
maiores, contendo a doença e, ao mesmo tempo, permitindo a vida em todo o lado
onde não haja contágio de grupo (a esmagadora maioria dos lugares). A discussão
está em saber se o que está a ser feito pelos governos ultrapassa os limites do
razoável.
Os cidadãos de muitos países ficaram sem liberdade de reunião (pessoas em
“isolamento social”, a polícia a usar abusivamente motivos sanitários para
proibir eventos que considera problemáticos), de circulação (quarentenas
forçadas que se prolongam por meses, fronteiras fechadas, a indústria da
aviação de pantanas), sem liberdade económica (lojas e empresas fechadas,
desemprego galopante, a sobrevalorização do teletrabalho e dos “lay offs”, que
serão, para muitos, a antecâmera do desemprego) e os mais novos sem o direito à
educação (escolas fechadas, a institucionalização das aulas à distância, resultando
numa degradação do ensino, desresponsabilização dos professores e até em
atribuição de diplomas universitários de forma administrativa e passagens de
ano automáticas).
Em certos países, já submergem as consequências de
tudo isto: pessoas que viviam de biscates e trabalho temporário estão agora
famélicas; sectores como o turismo e as
artes performativas deixaram de ter viabilidade e, mesmo quando voltarem a
tê-la, estão minados por uma crise de confiança que levará longo tempo a
resolver-se... E a pandemia da doença mental que já se faz sentir.
Nos escombros deste mundo doente, muitos são os
que estão zangados e protestam por ulteriores motivos, exigindo, no fundo, que
lhes seja devolvida a esperança num futuro melhor.
Há alguns que pedem o que nunca tiveram.
Outros querem de novo ter a liberdade para poder comer
o vento que lhes aprouver.
Paulo Barbosa, Jornalista em Macau desde 2008
Publicado originalmente no jornal Ponto Final (Macau)
Comentários
Postar um comentário