MAKAN ANGIN – Comer Vento, por Paulo Barbosa, Jornalista em Macau desde 2008



MAKAN ANGIN – Comer Vento


Já vai para quase cinco meses desde finais de Janeiro, quando a epidemia se começou a fazer sentir em Macau.
A última vez que saímos do território foi em meados de Fevereiro, para ir passar um fim de semana a Hong Kong. Apenas uma semana depois começavam as quarentenas generalizadas, os voos pararam. Tornou-se impossível cruzar a fronteira sem estar sujeito a duas semanas de quarentena no destino e mais outra quinzena de “observação médica” ao regresso. Isto se houver voos ou outro meio de transporte disponível... o que não se verifica na maior parte dos casos. Há pessoas retidas há meses nos sítios onde foram apanhadas ao acaso pela quarentena, algumas delas já enfrentando questões de subsistência. Portanto, ficou impraticável qualquer saída e o slogan “reduza as saídas de Macau”, transmitido até à exaustão pelas televisões e pelos altifalantes da Protecção Civil, passou a ser uma lengalenga sem sentido.
Estivemos meses assim, nem todos fechados em casa – como aconteceu noutros locais – mas encarcerados num território minúsculo, no aquário que é Macau. E a verdade é que Macau aguenta-se se pudermos sair.
Estar “semi-confinado” num casino flutuante com igrejas à proa não é o mesmo do que o estar num país, a não ser que falemos do Vaticano.  
Tem-se nesta região artificiosa e sem espaço aquela noção de estar proibido de sair da aldeia. Tudo fica “off limits”. Passam-se meses e meses literalmente na mesma rua. Sente-se uma certa claustrofobia, falta da estrada.
Os malaios usam a expressão “makan angin” (literalmente, “comer vento”) para significar o prazer da diletância. E Charles Baudelaire falava no “horreur du domicile”.
Nestas circunstâncias, estamos por decreto proibidos de comer vento. Tudo isto não se pode dançar. 
Aprendemos que um evento catastrófico pode mudar estilos de vida não apenas num continente, mas em todo o mundo.
E mudá-lo essencialmente para pior, embora com inadvertidos aspectos colaterais benéficos, sendo o principal a redução temporária da poluição do ar nas grandes metrópoles.
Aquele mundo aberto de que podia beneficiar uma parte crescente da população mundial está agora posto em causa. As inúmeras possibilidades de viagem que este traz também.
A reclusão forçada é particularmente penosa e angustiante para os que perderam o ganha-pão ou que ouvem já o zumbir da guilhotina financeira.
É-o também, embora em menor medida, para aqueles que são irrequietos por natureza.
Subscreve-se o Netflix, vai-se viajando nos livros, nos filmes e na imaginação das nossas crianças, na sua mágica capacidade de ver tudo com olhos novos.
Mas sobrevém uma crescente angústia em relação a este universo Covid-19 em que nos encontramos subitamente. É um lugar cheio de regras absurdas, tomado por uma espécie de fascismo sanitário. Prevalece a ideia totalitária de que o mundo pode parar de rodar (mas não acabam as sabotagens, os nacionalismos desabridos, o lucro com a tragédia alheia) e que é exigível que as pessoas se relacionem com “distanciamento social” ad aeternum. Enganou-se quem inicialmente pensou que as restrições seriam para durar 2 ou 3 semanas, o que seria aceitável e bem intencionado.
O Grande Irmão, na sua omnisciência alimentada por incontáveis aplicações e outros sistemas de vigilância, sabe o que é melhor para a tua saúde.
Uma boa parte da população mundial prescindiu mais ou menos voluntariamente de quase todas as liberdades, acreditando que assim fazia o melhor por si pelos outros.
Ninguém discute que as autoridades tinham que actuar para proteger a saúde pública. É uma questão de bom senso. Mas será possível, como se crê em muitos países, erradicar o vírus? Será possível em pouco tempo ter zero casos? E, mesmo que isso seja conseguido à custa de mil sacrifícios, não serão os novos surtos inevitáveis?
É preciso descobrir a equação que evite males maiores, contendo a doença e, ao mesmo tempo, permitindo a vida em todo o lado onde não haja contágio de grupo (a esmagadora maioria dos lugares). A discussão está em saber se o que está a ser feito pelos governos ultrapassa os limites do razoável.
Os cidadãos de muitos países ficaram  sem liberdade de reunião (pessoas em “isolamento social”, a polícia a usar abusivamente motivos sanitários para proibir eventos que considera problemáticos), de circulação (quarentenas forçadas que se prolongam por meses, fronteiras fechadas, a indústria da aviação de pantanas), sem liberdade económica (lojas e empresas fechadas, desemprego galopante, a sobrevalorização do teletrabalho e dos “lay offs”, que serão, para muitos, a antecâmera do desemprego) e os mais novos sem o direito à educação (escolas fechadas, a institucionalização das aulas à distância, resultando numa degradação do ensino, desresponsabilização dos professores e até em atribuição de diplomas universitários de forma administrativa e passagens de ano automáticas).
Em certos países, já submergem as consequências de tudo isto: pessoas que viviam de biscates e trabalho temporário estão agora famélicas; sectores como  o turismo e as artes performativas deixaram de ter viabilidade e, mesmo quando voltarem a tê-la, estão minados por uma crise de confiança que levará longo tempo a resolver-se... E a pandemia da doença mental que já se faz sentir.
Nos escombros deste mundo doente, muitos são os que estão zangados e protestam por ulteriores motivos, exigindo, no fundo, que lhes seja devolvida a esperança num futuro melhor.
Há alguns que pedem o que nunca tiveram.
Outros querem de novo ter a liberdade para poder comer o vento que lhes aprouver.

Paulo Barbosa, Jornalista em Macau desde 2008
Publicado originalmente no jornal Ponto Final (Macau)

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