Riscos Sociais – Cenários Pandémicos Parte II: Projeção de Cenários, por Ricardo Marques (EBA Sociologia/Lusango)



Riscos Sociais – Cenários Pandémicos Parte II: Projeção de Cenários

Na segunda parte do nosso questionário “Riscos Sociais – Cenários Pandémicos”, realizado pela Lusango – Consultoria para o Desenvolvimento e pela página Emprego e Bolsas na Área de Sociologia (EBA Sociologia), os inquiridos foram questionados sobre o grau de probabilidade de diferentes cenários (pós) pandémicos.
Embora a nenhum deles fosse atribuída uma nomenclatura, no sentido de não condicionar os inquiridos, diferenciavam-se em termos da capacidade de resposta dos Estados, grau de controle da pandemia e melhoria (ou não) das diferentes dimensões elencadas na primeira parte do questionário (ansiedade; risco de despedimento; perda/diminuição das condições laborais; falências das empresas; risco de se ficar doente; acesso aos cuidados de saúde; poder de compra; número de pessoas a viverem na pobreza; desigualdades sociais; qualidade de ensino; dificuldades em se manter a habitação; insegurança nas ruas; liberdade de imprensa; liberdade de expressão; conflitos familiares; conflito político nacional e conflitos internacionais).
Sublinhando, mais uma vez, que não foi utilizada nenhuma nomenclatura (numa escala “oculta” que vai de Muito Otimista a Muito Pessimista), os cenários apresentados foram os seguintes:
Muito Otimista - A curto prazo (entre 3 a 6 meses) a sociedade nacional (e internacional) melhora a dimensões socioeconómicas descritas acima comparativamente ao período anterior à pandemia (que será erradicada totalmente, controlada, ou com terapêutica acessível para todos).
Otimista - A curto prazo (entre 6 meses a 1 ano) a sociedade nacional (e internacional) encontra os mecanismos necessários para melhorar as dimensões socioeconómicas que tenderão a normalizar. A pandemia caminha para a erradicação e a sua terapêutica será de livre acesso.
Moderado - A médio prazo (entre 1 a 3 anos) a sociedade nacional (e internacional) piora em termos socioeconómicos, embora existam alguns sinais de melhoria. A pandemia, embora não esteja erradicada, já está sob controlo e/ou circunscrita.
Pessimista - A curto ou médio prazo (entre 3 meses a 3 anos) a sociedade nacional (e internacional) piora em todas as dimensões socioeconómicas. Embora com alguns avanços terapêuticos, a Covid-19 não está sob controlo, existindo países e grupos sociais para quem a situação é crítica.
Muito Pessimista - A médio prazo (entre 1 a 3 anos) a sociedade nacional (e internacional) enfrenta uma grave crise que afeta todas as dimensões socioeconómicas. Não se encontrou uma terapêutica definitiva, nem o seu acesso é livre. A situação é crítica e atinge todos os países e grupos sociais.

Podemos ver a distribuição de respostas no próximo gráfico:
Gráfico 1 - Probabilidade de diferentes cenários

Analisando as respostas dos inquiridos, se consideramos a concentração em termos de probabilidade de cada um dos cenários, observamos que o cenário Muito Otimista é aquele que é percecionado como sendo o mais Improvável/Muito Improvável. Os pressupostos deste cenário implicariam não só a erradicação da pandemia num prazo bastante curto, como também a melhoria dos indicadores socioeconómicos analisados na primeira parte deste questionário, nomeadamente o emprego, economia, pobreza, exclusão social, poder de compra, liberdade de expressão, de imprensa, relações familiares, conflitos internos e externos.
Se considerarmos, aliás, que este questionário foi realizado em Abril e nos encontramos, hoje, no fim do mês de Maio, constatamos que não só os indicadores socioeconómicos pioraram neste espaço temporal (aumento do desemprego, pobreza, fome, deterioração das relações sociais) como também a pandemia não foi erradicada.
Este cenário é transversal à generalidade dos países, embora muitos vivam realidades bastante diferentes perante a crise e a pandemia, particularmente no que concerne ao seu “estancamento” (visto estarmos bem longe de ela ser erradicada). 
Portugal, por exemplo, país que seguiu uma política de confinamento “rigoroso” (e onde se assiste, atualmente, a um desconfinamento por etapas) conseguiu (pelo menos até esta data) diminuir o número de casos diários, evitando o colapso da capacidade de resposta dos serviços de saúde e, simultaneamente, ir preparando a sociedade civil para o regresso à dita “nova normalidade”. O Estado também procurou evitar a derrocada exponencial das atividades económicas, acionando e incrementando, em simultâneo, os instrumentos de salvaguarda dos trabalhadores e dos demais grupos sociais (embora nem todos estejam abrangidos pelos mesmos, existindo uma larga franja de excluídos). No entanto, as políticas sociais e de emprego não tiveram capacidade para evitar uma crise socioeconómica profunda que, não só está instalada, mas cujos efeitos (devido à instabilidade e à desconfiança que grassa na sociedade) são imprevisíveis. 
Em Angola, a pandemia e o, subsequente, confinamento afetou fortemente uma economia bastante dependente do exterior e acentuou as desigualdades sociais. Contudo, as políticas de confinamento (embora, tal como noutros países e atendendo às especificidades dos mesmos, possam ser criticáveis) evitaram uma disseminação em massa do coronavírus e é expectável que, gradualmente, se comece a assistir a um maior desconfinamento. 
Por sua vez, o Brasil, onde não existiu um consenso político/social mínimo para o entabulamento de qualquer tipo de resposta coerente por parte dos atores políticos (muito pelo contrário) enfrenta o crescimento exponencial do número de casos (com forte incidência numa população pobre) e, mesmo sem um “confinamento” generalizado, acentuam-se as desigualdades e as fragilidades sociais e económicas.
Considerando o cenário Otimista, cujos pressupostos diferiam do primeiro, particularmente no tempo (entre 6 meses a 1 ano), assim como na gradual normalização das dimensões socioeconómicas (ou seja, elas melhorariam após um primeiro impacto de quebra) e, relativamente à pandemia, ela caminharia para a erradicação, ou para a descoberta de uma terapêutica, a maior parte dos inquiridos considera que este cenário será Tanto Provável como Improvável. Embora as respostas percecionem o elevado grau de incerteza inerente a esta realidade, não deixam de ser reflexo de alguma “confiança” social, atendendo ao facto de a maior parte das pessoas que responderam ao Questionário serem de nacionalidade portuguesa (ou viverem em Portugal), acontecendo o mesmo relativamente aos angolanos. Embora não fosse objetivo deste Questionário traçar essa comparação, observa-se que uma postura coerente por parte dos responsáveis políticos (embora sempre sujeita a críticas), a par de um suficiente consenso social relativamente ao que constitui o “risco” (neste caso, a Covid-19, mas também o seu impacto nas outras dimensões socioeconómicas) influencia o grau de confiança das comunidades.
Relativamente ao Cenário Moderado, comparativamente com os restantes 4 cenários, constitui aquele cuja maior parte dos inquiridos considera como sendo o mais Provável e Muito Provável. Os seus pressupostos assentam numa realidade a médio prazo (1 a 3 anos) onde a sociedade nacional (e internacional) piora em termos socioeconómicos, embora existam alguns sinais de melhoria. Neste cenário, a pandemia não está erradicada, apesar de já estar sob controlo e/ou circunscrita a algumas zonas geográficas. Sendo este um exercício de projeção, este parece ser o cenário mais “ajustado” ao caminho (se não existirem desvios) que teremos pela frente. Ou seja, os efeitos socioeconómicos da crise são estruturais e não, meramente, conjunturais e prolongar-se-ão no tempo. Contudo, a sociedade encontrará mecanismos para alavancar, embora de forma mais lenta e gradual, as diferentes dimensões da vivência coletiva (economia, emprego, igualdade social, entre outras, embora não se transforme numa sociedade mais “igualitária”). Esta leitura também atenta para o grau de controlo da pandemia: se os países responderam de formas diferentes, se as potencialidades/debilidades dos diferentes países são diferentes, os resultados finais (embora o local seja sempre “globalizado”) são, também, diferentes.
Depois do Cenário Moderado, o Cenário Pessimista é aquele que agrega o maior número de respostas como sendo Provável/Muito Provável. Neste cenário, a curto ou médio prazo (entre 3 meses a 3 anos), a sociedade nacional (e internacional) agrava os problemas e as desigualdades socioeconómicas. Relativamente ao controlo da pandemia, não obstante alguns avanços terapêuticos, ela não está controlada, sendo, aliás, bastante crítica em alguns países e grupos sociais. Note-se que o Cenário Moderado e o Pessimista são algo semelhantes, sendo que uma das diferenças que quisemos assinalar foi a questão do tempo: Moderado de 1 ano a 3 anos; Pessimista de 3 meses a 3 anos.
Não sendo o objetivo da nossa análise a escolha deste ou daquele cenário, mas aferir o grau de probabilidade de diferentes cenários, podemos observar que a perceção atual é a de que estamos perante um cenário pessimista. Contudo, de forma gradual e lenta, conseguiremos (embora com diferenças sociais e geográficas) atingir um cenário Moderado.
Por último, o Cenário Muito Pessimista, assente numa realidade a médio prazo (entre 1 a 3 anos) onde a sociedade nacional (e internacional) vive uma crise profunda que afeta todas as dimensões socioeconómicas, todos os países e todos os grupos sociais. Relativamente à pandemia, não se encontrou uma terapêutica definitiva, nem esta é de livre acesso. A maior parte dos considera-o como sendo Improvável/Muito Improvável, sintomático, aliás, de alguma confiança social relativamente à capacidade de resposta do Estado e da sociedade civil.

Conclusões/reflexões
- A maior parte dos inquiridos considera que a pandemia afetou, de forma premente, súbita, imprevisível, todas as dimensões socioeconómicas. O maior risco foi sentido (sente-se) em termos de despedimentos; falência das empresas; perda/diminuição das condições laborais; poder de compra; desigualdades sociais e aumento do número de pessoas a viverem na pobreza; assim como o risco de se ficar doente e, principalmente, o acesso aos serviços de saúde. Afetou, também, outras dimensões da vida coletiva, entre as quais o aumento dos conflitos familiares e a instabilidade social;
- Em termos de projeção de cenários, existe uma clara tendência para a perceção de um Cenário “Híbrido” que conjuga elementos de um cenário pessimista com outro de perfil mais moderado. Ou seja, embora o panorama atual seja complexo, sintomático da deterioração das condições laborais, economia, saúde, entre outras, a sociedade encontrará, a curto/médio prazo, formas de se empoderar. Contudo, será pouco credível caminharmos para uma sociedade mais igualitária. Pelo contrário, as desigualdades sociais tenderão a existir. O risco estará omnipresente.
- Existem perceções diferentes em termos de países, bastante condicionadas pelo grau de consenso existente nos mesmos. Sociedades mais consensuais tenderão a ostentar níveis de confiança maiores, independentemente dos resultados que possam ser alcançados em termos de controlo da pandemia e de salvaguarda da economia, do emprego e das diversas dimensões da vida coletiva.

Tentámos, de algum modo, contribuir para um eventual Diagnóstico (embora parcial, embora temporal, embora limitado) desta realidade súbita e incerta que enfrentamos. Na ótica da aprendizagem que se quer coletiva, nos passos pela estrada torta, encadeados pelos trovões e pelas trevas, procuraremos sempre, por mais ténue e intermitente que seja esta luz que ainda nos diz “não desistas”, caminhar até que as sombras se revelem. Na aprendizagem. Para que ela possa trazer, efetivamente, soluções que nos ajudem a construir sociedades mais justas e equilibradas.

“Nenhuma ação humana é neutra ou sem consequências”.
Immanuel Wallerstein

Ricardo Marques
Emprego e Bolsas na Área de Sociologia
Lusango – Consultoria para o Desenvolvimento


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