Riscos Sociais – Cenários Pandémicos Parte I: Multidimensionalidade, por Ricardo Marques (EBA Sociologia/Lusango)
Riscos Sociais – Cenários Pandémicos Parte I: Multidimensionalidade, por Ricardo Marques (EBA Sociologia/Lusango)
Tendo
como objetivo a compreensão e a discussão sobre as súbitas mudanças da
realidade social perante a Pandemia da Covid-19, a Lusango – Consultoria para o
Desenvolvimento e a página Emprego e Bolsas na Área de Sociologia (EBA
Sociologia) realizaram durante o mês de abril um questionário denominado Riscos
Socias – Cenários Pandémicos. O questionário detinha-se sobre dois eixos
principais: analisar diferenças multidimensionais perante o risco; perceber
quais os cenários (pós)pandémicos os inquiridos consideravam como sendo os mais
prováveis. O questionário, anónimo, recolheu alguns indicadores demográficos,
nomeadamente a nível de idade, género e nacionalidade - podendo os inquiridos
optar pela “escolha” do país de onde são, efetivamente, nacionais, ou pelo país
onde vivem há mais tempo (considerando, também, que muitas pessoas têm mais do
que uma nacionalidade).
Sendo
o primeiro inquérito online que a EBA Sociologia e a Lusango realizaram no
âmbito de um estudo – os outros estudos foram presenciais utilizando, também,
como instrumento principal o Inquérito por Questionário, mas também as
Entrevistas Semiestruturadas (mendicidade infantil e Igualdade de Género em
Angola, respetivamente), tivemos que lidar com algumas limitações, não só a
nível logístico, capacidade de abrangência e adesão ao questionário (visto não
ter limitações, geográficas, por exemplo), não sermos um centro de
investigação, representatividade, cientificidade, dimensão do questionário (que
procurou ser o mais curto e simplificado possível) mas, fundamentalmente, ao
carácter experimental inerente à situação excecional que nós vivenciamos,
advinda, fundamentalmente, de que, não estando na posse de todos os
indicadores, o comportamento, o risco, a incerteza dos atores, assim como das
múltiplas dimensões da vida social, também transporta consigo dúvidas sobre as
metodologias e os instrumentos adequados.
Independentemente
de todos estes fatores, no âmbito do que pode e deve ser o contributo das
ciências sociais, teremos sempre como instrumento de fundo a discussão e o
pensamento crítico, devendo sempre encarar as respostas como projeções e
perceções perante o momento atual e o Pós (existindo, ou não, de que forma ou
em que formato).
Em
termos de participação obtivemos 100 questionários válidos, correspondendo à
seguinte distribuição:
- 64
do género masculino e 36 do feminino;
- 5
inquiridos na faixa dos 18-25 anos; 18 na dos 26-35 anos; 45 na dos 36-45 anos;
25 na dos 46-55 anos; 2 na dos 56-65 anos e 5 na dos + de 65 anos;
- 79
oriundos de Portugal; 10 de Angola: 5 do Brasil; sendo os restantes 6
distribuídos por um conjunto de diferentes países: Moçambique, Cabo Verde, São
Tomé e Príncipe, Reino Unido, China e Bélgica.
Seguidamente,
foi apresentado um conjunto de dimensões (17), inquirindo-se sobre o grau de
probabilidade associado ao Risco Social inerente a cada uma delas,
nomeadamente:
- Aumento
da ansiedade
- Aumento
do risco de despedimento
-
Perda/diminuição das condições laborais
- Aumento
do número de falências das empresas
- Aumento
do risco de se ficar doente
- Diminuição
do acesso aos cuidados de saúde
-
Diminuição do poder de compra
-
Aumento do número de pessoas a viverem na pobreza
-
Aumento das desigualdades sociais
-
Diminuição da qualidade de ensino
-
Dificuldades em se manter a habitação
-
Aumento da insegurança nas ruas
-
Diminuição da liberdade de imprensa
-
Diminuição da liberdade de expressão
-
Aumento dos conflitos familiares
-
Aumento do conflito político nacional (dentro do mesmo país)
-
Aumento dos conflitos internacionais
Discriminando
as 17 dimensões apontadas, os inquiridos consideram que a diminuição da
Liberdade de Expressão e da Liberdade de Imprensa oferecem um risco Baixo/Muito
Baixo. De facto, considerando a realidade atual, principalmente em Portugal,
atendendo que a grande parte dos inquiridos são nacionais (ou vivem) em
Portugal, não se preveem substanciais riscos relativamente à existência de uma
imprensa livre, assim como à possibilidade de as pessoas se exprimirem. Mesmo
sendo sempre passível de críticas, considera-se que existe um relativo consenso
social que permite, pelo menos, aos atores políticos, aos meios de comunicação,
assim como à sociedade civil, fazerem o seu trabalho, exprimirem-se ou
debaterem ideias contrárias. A existência desse consenso, embora esta
microanálise não o contemple, não é tão evidente no Brasil, ou em Angola, assim
como noutros países, por exemplo.
Considerando
graus menores de risco, apenas o aumento da Insegurança nas Ruas é apontado,
maioritariamente, como sendo Moderado, embora muitas opiniões entendam que este
também é Alto ou Muito Alto.
Relativamente
às outras 14 dimensões, o risco social é sempre entendido como sendo,
predominantemente, Alto ou Muito Alto. Nesse prisma, destacam-se, com iguais
valores, as Falências das Empresas e o, subsequente, Despedimento dos
trabalhadores. Essa é, aliás, a principal realidade com que nos deparamos neste
momento, nomeadamente porque as respostas dos Estados perante a Pandemia
determinaram a paralisia parcial (total em muitos casos) de grande parte das
atividades económicas, como aconteceu, aliás, em Portugal, Angola, assim como
em alguns Estados brasileiros.
Embora
algumas políticas governamentais (caso português, por exemplo) tenham tentado
minimizar esses riscos através de políticas de apoio às empresas (maioritariamente
através do recurso ao Layoff) sempre foram insuficientes para travar os efeitos
não previstos de uma paralisação súbita e sem possibilidade de qualquer plano
ou estratégia ponderada previamente. Sendo assim, muitas empresas enfrentam
graves dificuldades e veem-se na iminência de fecharem as portas ou terem de
despedir trabalhadores. Embora não afete com a mesma intensidade todos os
setores (assim como todas as empresas), afeta com forte incidência setores âncora
para muitas economias nacionais (turismo e restauração, por exemplo) e outros
setores associados (transportes, viagens, atividades culturais, desportivas,
indústria, etc.) cuja empregabilidade é bastante relevante.
Considera-se,
também, que a interdependência intersectorial de uma economia com várias
escalas acaba por ter reflexos em toda os agentes económicos como um todo, mesmo
que nem todos sintam os efeitos da mesma forma e/ou os vivam em tempos
diferentes. Essa é a realidade atual e a perceção imediata desse risco tem-se vindo
a confirmar.
Logo,
também o risco de Perda/diminuição das condições laborais é sentido como sendo
Alto ou Muito Alto. Um cenário de diminuição abrupta dos rendimentos das empresas
determina (quase) sempre uma diminuição das condições de quem nelas trabalha. Note-se
que embora sejam sempre os trabalhadores com contratos mais precários e a
prazo, assim como os trabalhadores independentes (categoria que agrega uma
panóplia que vai desde profissionais com poucas qualificações a profissionais liberais,
tais como, por exemplo, dentistas, fisioterapeutas ou advogados), aqueles que,
tendencialmente, sentem os efeitos imediatos (não renovação dos contratos, despedimentos,
descontinuidade dos pagamentos aos prestadores de serviços, por exemplo) também
as outras categorias de trabalhadores acabam por sentir a diminuição das suas
condições laborais (terem de acumular funções que seriam exercidas por mais do
que um trabalhador, diminuição das proteções sociais, pressão, etc.)
Como consequência
dessa mesma realidade, os riscos associados ao aumento das Desigualdades
Sociais e ao, subsequente, aumento do Número de pessoas a viverem na pobreza
são também considerados Altos/Muito Altos. Essa é, mais uma vez, a realidade a
que assistimos neste momento. O desemprego, a precariedade, conduzem sempre à
deterioração das condições de vida e, por sua vez, à exclusão social. Embora
alguns países tenham sistemas de proteção social estruturados, como é o caso de
Portugal, nem todos vivenciam a mesma realidade. Angola, por exemplo,
atualmente, tem procurado implementar algumas medidas. No Brasil, por sua vez, assiste-se
a um cenário de conflito e falta de consenso político e social que “bloqueia”
as políticas sociais. Contudo, mesmo em Portugal onde as políticas sociais
possibilitaram alguma “rede” às famílias para fazerem face à crise, estas não conseguem
abranger todas as franjas populacionais e não estão preparadas para todo um
conjunto de “novos pobres”, nomeadamente pessoas que, antes da crise, viviam
sem problemas financeiros e “simbolicamente” integravam a classe média.
Logo,
também o risco de diminuição do Poder de compra é entendido como sendo
Alto/Muito Alto. Note-se, também, que nem todas as respostas sociais emergem
dos Governos, sendo, muitas vezes, impulsionadas pela sociedade civil (leia-se
Sociedade Providência) e por organizações do setor não lucrativo. Contudo,
também a capacidade de resposta da sociedade civil (organizada) e do setor não lucrativo
está bastante bloqueada.
Inerente
a estas dimensões, num cenário de incertezas várias, cresce também o Aumento da
Ansiedade, sendo este um risco considerado como sendo Alto/Muito Alto. Relacionado,
de forma bastante próxima com este último, também o Risco de se ficar Doente destaca-se
relativamente às restantes dimensões. O medo de se contrair a Covid-19 “trouxe”
para o debate político a questão da saúde e da responsabilidade dos
comportamentos individuais perante a saúde coletiva (inundados diariamente por
estudos, supostas vacinas, teorias, etc., a principal certeza sobre o vírus é a
sua capacidade de contágio). Logo, embora com valores menores, os inquiridos entendem
que é Alto/Muito Alto o risco de diminuição de Acesso aos cuidados de saúde.
Embora,
por exemplo, em Portugal o isolamento social tenha impedido a “saturação” dos
serviços do Sistema Nacional de Saúde, muitas pessoas têm medo de se deslocarem
aos hospitais e centros de saúde com medo de ficarem infetadas e, como
consequência, o seu estado de saúde geral piorou (note-se que a Ansiedade
também se enquadra nesta dimensão). Também é percetível que a capacidade de
resposta dos serviços de saúde está relativamente condicionada. Por sua vez, no
Brasil, a inexistência de um consenso social sobre as medidas está a dificultar
a capacidade de resposta dos serviços de saúde públicos (SUS) que enfrentam um
cada vez número maior de contágios de uma população maioritariamente pobre. No
caso de Angola, o isolamento social e a quarentena obrigatória têm tentado
travar um contágio social que seria dramático numa população maioritariamente
pobre e sem acesso a cuidados de saúde regulares e de qualidade.
Um indicador
interessante prende-se com o risco de aumento dos Conflitos Familiares que é
considerado como sendo Alto/Muito Alto. O isolamento social “forçado” ou
voluntário, é vivido, maioritariamente, na esfera da família. Num cenário de
contactos sociais com amigos, no trabalho, nas ruas, no lazer, etc., bastante
limitado, a família torna-se uma estrutura social ainda mais determinante. Não sendo
a família um espaço “neutro” torna-se, gradualmente, a antítese de um mundo
exterior condicionado, ou o reflexo de uma “frustração” perante uma sociedade
que parece se desagregar. Note-se que muitas campanhas contra a Violência
Doméstica e contra a Violência de Género, por exemplo, têm procurado chamar a
atenção para os riscos do confinamento familiar.
Embora
com valores menores, são considerados riscos sociais Altos e Muito Altos a Diminuição
da Qualidade de Ensino - sintomático de
uma sociedade que foi forçada a transitar para o online, numa despreparada “revolução
tecnológica” – assim como as Dificuldades em se manter a habitação – salientando-se
que grande parte do rendimento das famílias é para tentar fazer face a essa despesa.
Por
último, o Aumento dos Conflitos Internacionais é entendido como sendo Alto e
Muito Alto. As discussões sobre a origem do vírus, a solidariedade (ou a falta
dela) dos países relativamente aos outros, o encerramento gradual das fronteiras,
num mundo que sempre pareceu de livre acesso (existindo, obviamente, dinheiro e
passaporte) estão na base desta perceção. Embora tenha valores substancialmente
menores, também o risco de Conflito político nacional é considerado Alto. O
facto de a maior parte das respostas serem oriundas de Portugal explica,
parcialmente, não estarmos perante valores mais elevados.
Assinale-se,
contudo, que embora com exceções (caso do Brasil, por exemplo) existe um certo
consenso social relativamente às medidas adotadas (leia-se o isolamento social)
não obstante acarretarem os riscos que estamos a vivenciar. Se não tivessem
sido tomadas os efeitos seriam, aliás, mais perversos. Ou seja, depreende-se
que a realidade que enfrentamos é desconhecida e complexa, mas, sem sombra de
dúvidas, as respostas só podem ser ensaiadas no âmago da responsabilidade social
e coletiva que assumimos perante os outros.
Na
segunda parte deste estudo analisaremos as respostas sobre a Projeção de Cenários
possíveis.
Ricardo
Marques
Emprego
e Bolsas na Área de Sociologia
Lusango
– Consultoria para o Desenvolvimento
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