Velhos, Velhas e alguns mitos de um vírus "democrático", por Ricardo Marques (EBA Sociologia/Lusango)



Velhos, Velhas e alguns mitos de um vírus "democrático"


No seu livro “Diário da Guerra aos Porcos”, Adolfo Bioy Casares retrata uma sociedade onde o ódio aos mais velhos se instala e estes passam a ser os alvos das novas gerações. Mais do que uma parábola, espelha muito destes dias – não só os de hoje – mas de algo que já vem sendo construído de forma gradual nas nossas sociedades, particularmente nas ocidentais.
Os velhos e velhas – principalmente estas últimas, porque tendem a sobreviver aos homens - franja substancial da população europeia, foram e são, muitas vezes, o sustentáculo de muitas famílias, filhos e filhas, netos e netas, tal como aconteceu aquando a crise das Dívidas Soberanas e com o desemprego e o empobrecimento por elas provocado. Mesmo assim, as subsequentes políticas de austeridade não tiveram grande pejo em os/as penalizar severamente com os cortes nas reformas, cortes nos subsídios de sobrevivência, viuvez, entre outros.
Embora sejam também o suporte da sociedade providência, são muitas vezes entendidos como “excessos”, ou como descartáveis, não só por parte de algumas famílias, como por parte dos Estados que os veem como despesas correntes que deveriam ser dispensáveis, como acontece, fundamentalmente, quando se discutem as reformas e a dita sustentabilidade da Segurança Social.
Logo, “invejados” pelas suas reformas, pelo seu tempo, pela estabilidade laboral, totalmente inalcançável à generalidade das gerações mais novas – o que não deixa de ser uma falácia, porque a pobreza e a miséria também acompanham os velhos e velhas - são também as “despesas extra” e, fundamentalmente agora, o principal grupo de risco sob ameaça do Covid-19. Numa leitura cínica: as principais vítimas.
Sabendo que a velhice não deixando de ser “tempo”, é também construção social, devemos atender ao seguinte:
Ser velho e velha depende da resiliência, da capacidade de se “prolongar” nos dias e nos anos, estando relacionada com dois fatores: resistência individual e capacidade de o Estado em assegurar condições e acesso à saúde (vacinação, universalidade, gratuitidade). Relacionado com o segundo fator: a garantia de acesso e usufruto relativamente a todas as outras dimensões da vida social (habitação, rendimento, alimentação, etc.). Logo, também a resistência individual (embora variável) depende das oportunidades sociais, ou das oportunidades que os indivíduos encontram na sua esfera social. Às quais têm (ou não) acesso. Em contextos de acesso restrito, na maior parte das vezes “caros” e “condicionados”.
O ser velho e velha na Europa não é mesmo que ser velho e velha noutras partes do mundo, como, por exemplo, em África, Ásia, ou em parte substancial da América do Sul. A Esperança Média de Vida é diferente de país para país, assim como o Índice de Envelhecimento. O facto de uma sociedade ter mais jovens do que pessoas mais velhas não implica que a mortalidade de um vírus (seja ele qual for) seja menor. As comorbilidades, que aceleram os efeitos do Covid-19, por exemplo, estão mais presentes na população idosa, mas também estão presentes em franjas substanciais da população mais jovem, sendo de particular risco a que não teve os mesmos acessos à saúde em sociedades desiguais.
Devemos entender que a falta de acesso à vacinação, água, saneamento, alimentação correta, riscos de trabalho, entre diversos fatores, faz com que uma pessoa nova num contexto possa ser velha noutro, nomeadamente porque em sociedades onde existem maiores défices sociais (saúde, rendimento, entre outros) que, por sua vez, são também as sociedades onde as desigualdades sociais estão mais vincadas, o risco de morte por doença, falta de acesso, miséria, violência, são também eles maiores. Onde as pessoas morrem mais cedo. Onde são velhos e velhas mais cedo, ou que nunca o chegam a ser.
Por sua vez, o mito da “democracia do vírus”, que atinge todos e todas por igual (países e pessoas, ricos e pobres, etc.) é uma falácia perigosa. Estamos todos e todas no mesmo barco, mas o balanço, o enjoo, o naufrágio e o afogamento são diferentes perante a mesma onda.

Ricardo Marques
Emprego e Bolsas na Área de Sociologia
Lusango - Consultoria para o Desenvolvimento

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