Quatro Cavaleiros e um Burro de Carga, por Ricardo Marques (EBA Sociologia/Lusango)



Quatro Cavaleiros e um Burro de Carga, por Ricardo Marques (EBA Sociologia/Lusango)

Numa visão truncada e à letra dos “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, descritos no Livro da Revelação, em todo o nosso imaginário, em tudo o que estes tempos acarretam de enigmáticos e de simbólicos e onde toda a projeção de cenários é incerta. Para além dos símbolos do misticismo e do que sociologicamente se espelha numa realidade para a qual ainda não acordámos.
Na nossa contemporaneidade, ou em sociedades que, não obstante o avanço civilizacional, a ordem sempre conviveu com o caos, sendo a maior parte do mesmo “vácuo” - em tudo o que pode significar em termos de desequilíbrio social, distribuição de recursos, desigualdade social, de género, racial, entre países, etc. - por mais filtros e máscaras que trajemos, as debilidades sempre foram estruturais. Por serem estruturais, torna-se mais complexa a capacidade de resposta dos Estados e dos indivíduos.
No cerne dessa incapacidade, a trote e a galope encontra-se a metáfora. Quatro cavaleiros um burro de carga. Os cascos dos quatro cavalos troteiam sangrentos pela encosta da montanha. Na sua base, o burro aguarda. De olhos postos na televisão, espera-se que se atinja o pico. Da montanha ou do planalto.
Na oscilação das curvas, mas na violência dos cascos pela encosta abaixo…
A Peste. Por mais metafórica, por mais “Camusiana” que seja, esta Pandemia é isso. Como qualquer outra doença, “nova ou velha”, ela não apaga as outras. Morre-se de todas, ou de algumas, ou da conjugação das várias. A capacidade de um indivíduo não independe da capacidade de resposta do seu sistema de saúde (e da interdependência deste na arquitetura social), sendo a maior ameaça a rutura desse mesmo sistema, embora para muitos países, este seja pouco operante ou inexistente. Mesmo assim, pela capacidade e facilidade de contágio, pelo desconhecido em termos científicos, a “cura”, a vacina (um dia destes, um destes dias…) poucas vezes, em termos históricos, foi de livre e fácil acesso. Para quais e para quem e em qual contexto?
A sociedade de mérito (ideia falaciosa nas nossas vivências desiguais) arrisca-se a transformar-se na sociedade do merecimento. Quem merece viver? Os mais úteis? Os mais jovens? Os que podem viver mais?
A Fome. Sempre omnipresente na generalidade da África, Ásia, América Latina, mas também em franjas da Europa, Estados Unidos, entre outros. Há quem afirme (e é verdade) que a fome mata muito mais do que a Covid-19. Mas tal como nas outras doenças, tal como nos quatro cavaleiros, a fome é outra das marcas da Pandemia.
Os que não podem deixar de trabalhar e arriscam o contágio nas ruas, ou os que ficam em casa e “tentam adivinhar”, impotentes, os efeitos nefastos de uma socioeconomia que se fratura. De todos os quadrantes, de todas as classes. Em graus diferentes, de imediato, ou de curto, médio ou longo prazo ou a prazo. Quantos empregos, quantos postos de trabalho? Numa socioeconomia em rede, os efeitos são transversais. Como num castelo de cartas.
A Guerra. O que pressupõe o conflito, ou a discórdia, em sociedades “líquidas, na visão de Bauman, ou pós e hipermodernas, na visão de Lipovetsky, mas onde a maioria da população (particularmente no dito Ocidente, visto que em África e na Ásia, as redes de sociabilidade são mais fortes face a Estados frágeis) experiencia já há largas décadas a solidão do quotidiano.
Solidão real ou de afetos, no caso dos idosos, ou dos mais pobres, por exemplo, mas fundamentalmente solidão de políticas reais do Estado. Ou outras solidões. Solidão no meio do todo e do tudo, numa sociedade onde tudo é consumo e a prazo (na visão do mesmo Bauman), pois todos podemos ser descartáveis perante os outros. Perante o tudo e o todo e o Nada. “O Ser e o Nada”, como no título do Sartre, mas sem lugar para Camus: onde se lê “solitário”, pode e deve (também) se ler “solidário”.
Há quem diga que perante uma crise, sucedem-se as guerras. Se por um lado, esta crise nos tem mostrado exemplos incríveis de solidariedade, de humanidade, também nos revela o lado mais pérfido de nós mesmos: do olhar o outro como um “estranho”, um potencial “contaminado”, uma ameaça, ao aproveitamento especulativo dos preços, à falta de acordos internacionais, ou a mera ganância dos países que monopolizam recursos ou que não os partilham. A lógica é a mesma.
A Guerra alimenta-se do micro e do macro, nacional ou internacionalmente. Como no meio do vácuo, ainda se encontram aqueles que falam de campos de concentração para os infetados, construindo o estigma do sino ao pescoço que os leprosos do séc. XIX eram obrigados a transportar quando se aproximavam de uma aldeia. Se já existem campos de concentração na Europa, quais as diferenças agora?  
A Morte. Omnipresente. Há quem diga que os mortos do Covid-19 são uma gota de oceano num mundo onde somos grãos de areia. E somos. Embora seja pertinente o diálogo do filme Oldboy, realizado por Park Chan-wook em 2003. Depois de 15 anos preso, trancado numa cave, o libertado “anti-herói”, no caminho destrutivo da vingança, conhece o seu captor e confronta-o com as razões para a sua prisão. Estas são mesquinhas, como quase todas. Mas, perante a incredulidade, o captor responde: “Tanto um grão de areia, como uma rocha, ambos no mar se afundam”.
Individualizada, personalizada, ou mascarada, em toda a morte de um indivíduo se encontra uma “morte social”. Socialmente construída. Os avôs teóricos da sociologia não se enganaram nessa análise.
Mas a Morte também tem várias faces, estatística ou simbolicamente falando. Se da estatística não conseguimos fugir agora (os tais olhos pregados no televisor), do simbólico muito menos.
Há quem entenda que tudo voltará à “normalidade”. Há quem entenda que construiremos uma sociedade nova. Que é uma mudança de paradigma.
Sem certezas na incerteza. Não cremos que nenhuma das visões possam estar corretas ou, estando as duas (ou nenhuma), possam se anular ou conviver na incerteza de uma terceira ou quarta ou quinta.
Enquanto os quatro cavaleiros não chegam à base. Na imprevisibilidade, na violência. Ou na vingança (?)
O que nos interessa é o burro. Trauteando a encosta junto à base. Dando passos tímidos e atrapalhados, arriscando subir a montanha. Ele sabe que os cavaleiros estão a caminho. Que nada é garantia de nada. Mas que o pasto de onde partimos está seco.
O burro.
Se somos o que carrega às costas. Se somos o próprio burro. Não sabemos. Apenas que a montanha é alta. E que o que transportamos é frágil. E que os nossos passos são lentos.

Ricardo Marques
Emprego e Bolsas na Área de Sociologia
Lusango – Consultoria para o Desenvolvimento


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