QUE SEJA O QUE COVID QUISER, por Paulo Barbosa, jornalista em Macau





QUE SEJA O QUE COVID QUISER Por Paulo Barbosa, jornalista em Macau desde 2008


Era o dia 22 de Janeiro e tudo estava normal em Macau. As multidões do ano novo chinês começavam a inundar as ruas da cidade e estava sol. Tinha-se ouvido já falar de um estranho vírus que afectava uma província do centro da China, mas na altura discutia-se ainda se poderia ser transmissível entre pessoas. Não havia nenhum alarme, ninguém usava máscara.
Lembro-me bem desse ultimo dia de normalidade em Macau. Caminhava pelas ruas cheias de gente, já um pouco atrasado para um encontro com um amigo, quando me vi preso no meio de uma multidão. Senti alguém empurrar-me e pensei que o ano novo chinês (uma altura em que Macau fica tão cheia que é normal que a polícia aplique “medidas de controle de multidões”) estava a começar cedo desta vez. Quando cheguei perto do meu amigo, apercebi-me de que o empurrão não havia sido casual: tinham-me roubado a carteira que incautamente levava no bolso da mochila.
Passei parte da tarde na esquadra a reportar o caso, disseram-me que os autores do feito eram provavelmente artistas do alheio vindos da China continental, que aproveitavam a confusão do ano novo chinês para exercer o seu métier.
Voltei para a redacção da Televisão de Macau e notei que notícias preocupantes vinham da cidade de Wuhan, que algo de grave se estava a passar ali. No dia seguinte, 23 de Janeiro, o Governo Central da China declarou que aquela cidade e outras da província de Hubei iriam ficar isoladas.
E tudo mudou quase instantaneamente. Nesse dia, o alarme já estava instalado na China continental. E demorou pouco a instalar-se aqui. Porque não é em vão que se isola uma cidade com 11 milhões de habitantes... E as ruas já tinham muito menos pessoas do que na véspera, os turistas deixaram de vir ou de poder vir (há um esquema de vistos complexo, que faz com que as autoridades controlem o fluxo de pessoas que passam a fronteira). Seria uma questão de dias até que Macau - uma região que vive do turismo - parecesse uma cidade fantasma.
Os primeiros 10 casos que surgiram em Macau eram quase todos turistas que tinham saído de Hubei antes do fecho da cidade.
Começou então uma operação de contenção de danos e paranoia. Os turistas da província em causa foram localizados nos seus hotéis e alojamentos. Foram depois escoltados até à fronteira ou “convidados” a ficar em isolamento na zona mais remota da cidade.
Os acontecimentos precipitaram-se: as escolas já não reabriram depois de 25 de Janeiro e um certo pânico instalou-se quando foi decretado um quase inédito encerramento dos casinos. Na tarde do anúncio dessa medida, houve uma certa corrida aos supermercados, com pessoas a açambarcarem alimentos e outros bens. Mas o governo agiu com rapidez e eficiência para garantir que os supermercados se mantivessem recheados. Foi estabelecido um esquema de distribuição semanal de 10 máscaras por pessoa.
Aeroportos e terminais de transporte foram fechados, com  as companhias aéreas a limitarem ou cancelarem os voos para locais afectados. Juntamente com os casinos e as escolas, as salas de espectáculo e cinemas foram encerrados. Houve pedidos para que os funcionários e estudantes declarem onde foram de férias, apelos a um regresso rápido de “zonas contaminadas”.
Com o anúncio de mais casos, foram encerrados os serviços públicos durante a maioria do mês de Fevereiro. Muitas pessoas trabalharam a partir de casa. Com a cidade praticamente deserta, os hotéis começaram a suspender operações, e alguns estão agora a servir como centros de quarentena. Os casinos entretanto reabriram bem mais rápido do que as escolas. Como alguém do governo local disse, tratava-se de garantir a “malga de sopa” para os trabalhadores do sector do jogo, que é a grande indústria de Macau. Mas os casinos estão praticamente vazios e as perdas são imensas.
Tudo isto levou muitos dos chamados “trabalhadores não residentes” a serem obrigados a tirar férias ou mesmo a perder empregos. Os que saíram não podem agora regressar para suas casas, pois foi decretada uma duvidosa proibição de entrada no território de todos os TNRs, excepto os que são da China continental, de Hong Kong e de Taiwan. O habitual: os que estão em posição mais vulnerável e os estrangeiros que paguem a crise. 
E têm sido 2 meses disto, o que parece uma eternidade. Entretanto, a situação melhorou, com 40 dias sem novos casos, para voltar a piorar nos últimos dias, com uns poucos novos “casos importados”, alguns dos EUA e da Europa e uma reação que parece desproporcional, com mais restrições anunciadas.
No plano pessoal, o que me tem custado mais é ter o meu filho sem escola entre fim de Janeiro e, tudo indica, o início de Maio. São mais do que três meses, na altura das primeiras socializações e aprendizagens. É uma violência para as crianças, que já não sabem o que fazer em casa. Sei que as opiniões se dividem e que a saúde está em primeiro, mas era realmente necessário tanto tempo quando há poucos casos em Macau (menos de 10 activos no momento em que escrevo)?
Não estarão as autoridades a ser demasiado cautelosas, quase medrosas? Risco 0 não existe, nem vai existir nunca. Se há um caso numa escola, fecha-se essa escola e não têm que estar todas fechadas. Assim estão a deixar as crianças sem escola e isoladas. Não é bom.
E tudo isto começa com um morcego a morder uma cobra num mercado de Wuhan? Romancistas da estirpe Philip K. Dick/Cormac McCarthy (que não se lembraram de coisa parecida, embora o "The Road" do McCarthty tenha pontos de ligação com este cenário) têm aqui o ponto de partida para um "best seller".
A verdade é que estamos todos metidos numa experiência social inédita e com consequências desconhecidas. É caso para dizer a medo: que seja o que Covid quiser.





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