Colapsos repetidos de sonhos: Caso República da Guiné-Bissau
Como Sociólogo, apraz-me dizer-vos, embora de uma forma teórica –
hipotética que, às patológicas instabilidades políticas e pseudopolíticas, que
têm marcado o percurso histórico da Guiné-Bissau, são resultados, sobretudo, da
longa e profunda crise do contrato social que o país tem assistido
persistentemente desde o período embrionário do pós-colonialismo até a data
presente.
Esta crise tem asfixiado a capacidade reflexiva e humanística dos decisores
políticos e partidários guineenses, plasmando sentimentos de ódio, intrigas,
inveja, conspiração, e consequentemente algemado o desenvolvimento micro e
macroestrutural da Guiné-Bissau.
O contrato social é aqui definido numa perspetiva ocidental, como a
metáfora fundadora da racionalidade social e política da modernidade ocidental.
Este contrato visava criar um paradigma sociopolítico que produzisse de uma
maneira normal, constante e consistente quatro bens públicos: legitimidade da
governação, bem-estar económico e social, segurança e identidade coletiva
(Santos 2004). A prossecução destes bens públicos desdobrou-se numa vasta
constelação de lutas sociais, desde logo as lutas de classes (Santos 2004).
Ora, redefinindo o contrato social, tomando como objeto de análise à
realidade histórica e antropossociológica da Guiné Bissau, pode ser visto como
a metáfora fundadora, da unidade socio-regional ou da identidade coletiva da
Guiné-Bissau. Este paradigma social, político e cultural, que serviu de
inspiração aos nacionalistas guineenses, tem atravessado há quatro décadas,
períodos de grande turbulência e contradição. Pois, tem sido sistematicamente
maculado por atitudes folclóricas, por competição pelo poder, por mortíferos
conflitos pessoais por parte das elites políticas e partidárias do país,
candidatas à privatização do Estado para acumulação de riqueza privada e a
manutenção de redes de clientelismo (Seibert, 2002). Estas atitudes sociopatológicas
das elites políticas e partidárias guineenses têm feito colapsar
repetidamente os sonhos que emanaram do período embrionário do
pós-colonialismo. Pois, os discursos políticos dos nacionalistas guineenses, na
fase inicial de transição de paradigma, inspiraram esperanças bem fundadas e
prometeram liberdades essenciais, justificadas e reais nos seus
resultados. Esperanças que deram uma nova vida a um povo que há
muito estava reduzido ao silêncio e a sujeição.
Mas na prática, foi o início de um novo período, de imobilismo, da
degradação das esperanças, portanto, de decadência.
A atual crise que a República da Guiné-Bissau vive é o exemplo disso mesmo.
A Guiné-Bissau para atingir os objetivos da coesão e da unidade nacional,
para lidar com às vicissitudes normais, decorrentes do processo de transição de
paradigma, precisará de uma outra geração de políticos. Políticos com uma
cultura de pensamento e da reflexividade, que não se mobiliza sem razões, a sua
própria vida é objeto de meditação, de reflexão e de autoanálise permanente.
Precisará de uma geração de políticos que consiga “beijar” a competência
técnica com a inteligência social, com a consciência social.
Hector Afonso Costa
Sociólogo pela Universidade de Coimbra
963164512
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