UM QUADRO PARA O ESTUDO E PROMOÇÃO DAS ATIVIDADES
CIENTÍFICAS EM ANGOLA
Paul Philips é um psicólogo holandês, especializado em Psicologia Clínica
e do Desenvolvimento. É docente e investigador da Universidade de Gent (Bélgica),
tendo também colaborado com o Instituto Superior Politécnico Tundavala (ISPT) e
com o Instituto Superior Politécnico Independente (ISPI), ambos sedeados no
Lubango (Província da Huíla, Angola). Os seus interesses de investigação
prendem-se com as Manifestações de Dor Aguda na África Subsaariana e, mais
recentemente, com a disseminação de Redes de Conhecimento Científico, particularmente
em Angola.
Da minha experiência em pesquisa
científica em Angola e na tentativa de estabelecer um Centro de Estudos, queria
exprimir uma opinião pessoal sobre as oportunidades de fazer pesquisa.
Como está a situação no momento? Angola é
um deserto com apenas alguns oásis onde quase nada cresce e onde alguns
sucessos em investigação, que Angola pode mostrar orgulhosamente ao mundo
exterior, simplesmente disfarçam o facto de a situação ser muito muito fraca? Ou a pesquisa
está progredindo e o caminho é dificultado por muitos buracos? Ou ainda mais
positivo, podemos comparar a situação com uma árvore onde o tempo está quase
apropriado para colher os frutos maduros? Como
está a situação? Um deserto, uma estrada com buracos, uma árvore cheia de frutos?
Qual é a realidade? As estatísticas
mostram uma realidade diferente do que está acontecendo nas instituições de
ensino superior. Segundo o Índice de Desenvolvimento Humano de 2018, um índice no qual a educação é uma componente importante, Angola está no lugar 147 em 189 países. Um lugar questionavelmente
baixo para um país que possui um dos maiores PIBs da África Subsaariana.
Segundo o National Science Foundation (EUA), Angola ficou no lugar 149 em 187
países relativamente à produção dos artigos científicos. E o influente Scimago
Journal & Country Ranking coloca Angola na posição 158 em 239 países/entidades
geográficas, situando-se à frente de 18 outros países da África Subsaariana
segundo o número de documentos publicados. Além disso, Angola, sendo um dos
poucos países no mundo, não participa no Global Education Monitor da UNESCO. Um
facto verdadeiramente surpreendente! Cientificamente, Angola é um deserto?
Por outro lado, em quase todos os cursos e
currículos de quase todas as instituições, competências e práticas
investigativas estão sendo ensinadas. Então, o que explica essa enorme
diferença? Há algo acontecendo que não pode suportar a luz do dia? Ou,
novamente, há uma enorme disparidade nos esforços e o nível científico depende
do engajamento pessoal de certos docentes? Esforços que são “tiros no escuro”
porque não são integrados num contexto suportável?
Quero enfatizar que a atividade científica
de um país não é igual à soma de todas as investigações atuais. Essas atividades
só podem florescer se estiverem inseridas em uma política científica. Uma
política nacional e também institucional. Na minha opinião, é isso que falta em
Angola. Como exercício de pensamento, suponhamos que Angola atraía muita
atenção do mundo, o que não acontece no momento, como uma área interessante
para a pesquisa científica? Seria bem provável que esses pesquisadores
interessados, simplesmente não soubessem quem abordar ou como se conectarem com
as políticas existentes.
Entrevistado por um jornalista de ‘O
País’, o atual secretário de Estado para a Ciência e Inovação, Domingos da
Silva, lamentou a falta de dinamismo nas instituições e expressou, através de
sua visão, a necessidade de uma reestruturação do sistema “para que não haja
problemas na condução de processos tanto de investigação científica como de
organização das instituições que realizam atividades de investigação científica.” (O
País, 19 de julho, 2019)
Eu considero que é um grande passo à
frente na abertura dum debate sobre o papel da pesquisa científica no ensino
superior. Mas como os meios são limitados na criação de um espaço fértil para a
investigação científica, especialmente durante a atual crise económica em
Angola, é crucial criar uma visão e estrutura bem delineadas antes de começar a
financiar projetos que de facto simplesmente continuam a fragmentação que
produz poucos sucessos e muitos fracassos. Um percurso que Angola seguiu por
demasiado tempo.
Torna-se, então, necessário desenvolver uma visão e a partir dela criar
uma estrutura. É esse o grande desafio.
Se bem executado, tem que resolver muitos
problemas. Eu vou apenas mencionar alguns deles:
·
Melhorar as competências dos professores
(promover a variedade das metodologias)
·
Estabelecer centros de estudos (em forma
de equipas de investigadores segundo linhas de investigação bem identificadas)
·
Formular bem o trabalho científico em articulação
com o trabalho educativo dos docentes
·
Formular bem como os resultados das
pesquisas podem dar valor à transmissão de conhecimento no próprio instituto
·
Atrair fundos da indústria (nacional,
internacional), de órgãos governamentais (angolanos, mundiais), ou de
organizações beneficiárias (CPLP, Gulbenkian, Gates Foundation)
·
Investir na criação de centros digitais de
conhecimento ao lado de bibliotecas onde professores e estudantes possam
consultar publicações nas plataformas digitais
·
Resolver a questão de especialização das
instituições públicas no ensino superior e, como consequência, a presença das
ciências em cada área académica
·
Divulgação de ciência para a formação de
novos públicos
·
Criar interação entre institutos em forma
de conferências, edição de revistas e publicações conjuntas, etc.
E estas são apenas algumas questões que
precisam de ser resolvidas. Existem muitas outras áreas, como epistemologias
apropriadas, filosofia das ciências, movimento skeptico, colaborações
internacionais e/ou multidisciplinares, colaborações entre o ensino superior e
a indústria, iniciação dos estudantes em fazer investigação no contexto de
trabalho de fim de curso e criar um espaço (logístico, financeiro) para a
realização de doutoramentos de alto nível
Proponho, como ponto inicial, em dividir
esses planos futuros em dois grupos. Um lida com o período de transição,
tratando das ações e investimentos necessários para criar o ambiente de
pesquisa desejado em Angola. O outro trabalha a delineação da topografia exata
de pesquisa.
Quaisquer que sejam as escolhas feitas e o
tempo necessário para realizar esses objetivos, Angola precisa usar esse tempo,
atendendo que os meios são poucos e as instituições estão se preparando para um
futuro melhor, para debater o futuro da sua pesquisa científica.
Paul Philips

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