Os “Is” da identidade sociológica – Ideologia (2). Angola, Brasil, Portugal













Se atendermos à realidade do Brasil, é notória a existência de um ataque cerrado à sociologia e às ciências sociais. A tentativa de menorização da sociologia e das ciências sociais deve-se, fundamentalmente, ao carácter ideológico que lhes é atribuído, entendendo-as como “doutrinação ideológica esquerdista”. Este ataque - que mais não é do que um ataque ao pensamento crítico, assente na visão de um mundo “utilitarista” e de modelo único - constitui, fundamentalmente, um paradoxo. Ou seja, é uma ideologia centrada unicamente no mercado não tutelado e no “funcionalismo” (mais, aliás, do que nas ciências exatas) que pretende menorizar/erradicar as ciências sociais, visto estas, supostamente, estarem “contaminadas” pela ideologia.
Assim sendo, o “preconceito” perpassa para os/as profissionais desta área que procuram emprego, particularmente porque passam a ser taxados/as de esquerdistas (no que constitui, também, um julgamento moral e uma ameaça latente às suas escolhas individuais). Como consequência, enfrentam um real preconceito, tanto em termos de procura de emprego no setor privado (que tende a privilegiar pessoas doutras áreas, não obstante a natureza do trabalho ser o mesmo), como em termos do setor público (neste caso, patente nos cortes ao financiamento da investigação nas ciências sociais). Atualmente, o debate ideológico no Brasil é interessante e assiste-se a uma disputa acérrima entre esquerda e direita (presente em todas as camadas da população). O que empobrece o debate não é o seu lado acérrimo. O debate perde quando se torna assente na manipulação, na desinformação, nas fake news e no “achismo” opinativo sem fundamento.
Relativamente a Portugal, a questão ideológica não é preponderante, nem está tão vincada. Aliás, existe muito maior tensão social nos debates sobre o futebol português (cada vez mais acéfalos) do que nas questões sociais. Mas também em Portugal as ciências sociais caminham para a menorização. Ao contrário do Brasil, onde os movimentos e as organizações sociais são expressivos, em Portugal a sociologia e as ciências sociais caem o risco de se remeterem ao “feudalismo” – ou seja, uma das maiores dificuldades é elas terem uma força pungente fora das academias e de se afirmarem no exterior dos seus núcleos de investigação, não obstante algumas mudanças positivas alcançadas nos últimos anos (particularmente nas questões de igualdade de género). 
Os anos 70, no pós-salazarismo, constituíram, contudo, o expoente máximo da força dos movimentos sociais em Portugal. Atualmente, não obstante a existência de alguma sociedade civil organizada e combativa, perpassa a ideia de que ela acaba, cedo ou tarde, por ser “normalizada” e integrada no sistema (essa entidade abstrata, mas que todos/as reconhecem como o status quo). O mesmo acontece, aliás, com as universidades e com os centros de investigação.
Embora a ideologia esteja presente, por exemplo, no Terceiro Setor, ela não enquadra (diretamente, pelo menos) uma tensão ideológica entre esquerda e direita, devendo-se mais a questões acerca do papel do Estado (mais ou menos interventor), como acontece, aliás, no setor lucrativo. Embora em Portugal a ideologia não seja utilizada como principal argumento para a ostracização da sociologia, a velha retórica do “utilitarismo”, do que dá e do que não dá lucro, assume-se cada vez mais como dominante.
A baixa empregabilidade dos/as licenciados/as em sociologia é utilizada como fundamento para a sua secundarização, a par da ideia de que o Estado não deve investir nas ciências sociais (nomeadamente porque não devem ser consideradas “ciência”). Saliente-se que, tal como acontece no Brasil, a grande maioria dos/as licenciados/as nestas áreas são mulheres (algo que não acontece em Angola), sendo também notório que não é inocente a menorização de uma área onde estas constituem a maioria.
Embora alguns dos nomes mais conhecidos da sociologia em Portugal sejam de esquerda, a verdade é que diversos/as sociólogos/as integraram diferentes governos (principalmente nas pastas da cultura, saúde ou educação), não sendo, aliás, notório que tenham existido “radicais” mudanças, quer em termos sociais, quer em termos da visão que as pessoas têm acerca da sociologia. E em termos ideológicos, não obstante algumas nuances em termos práticos, ou discursivos, os diferentes governos portugueses têm sido de centro, alguns mais à esquerda (por vezes devido a acordos parlamentares), outros mais assumidamente de direita liberal (embora com a “desculpa” da intervenção do FMI, por exemplo).
No caso de Angola, ao contrário do que seria suposto, é pouco significativo o debate ideológico, não obstante ter sido um país onde “governou” um partido político de ideologia assumidamente marxista - particularmente expressivo entre 1975 (independência) e 1991 (início do multipartidarismo), neste caso o MPLA. Note-se, aliás, que a mudança ideológica e de políticas não traduziu uma mudança de governo. Embora seja também acérrima a tensão político-partidária (se pensarmos, por exemplo, nos 27 anos de guerra civil), não existe um debate acentuado entre esquerda e direita, mas sim o recentrar do debate em termos de direitos e condições essenciais para uma cidadania plena e com maior distribuição social. 
Os conceitos “esquerda” e “direita” não são de uso corrente em Angola, não se podendo, igualmente, afirmar “taxativamente” que são, ou foram, de esquerda ou direita, as políticas públicas num país que é governado pelo mesmo partido desde a sua independência. Em Angola, o Estado (leia-se o Governo, ou o partido maioritário, assim como as suas personalidades) sempre foi entendido como o Pai provedor. Hoje em dia, assiste-se gradualmente a uma maior participação da sociedade civil (fora do âmbito partidário) – traduzindo uma mudança positiva, apesar de a sociedade angolana enfrentar uma gravíssima crise económica que afeta, fundamentalmente, vastos grupos sociais que sempre viveram muito abaixo da linha da miséria.
Em Angola o ensino superior ainda constitui uma forma de ascensão social, apesar de o desemprego estar a aumentar entre os licenciados/as. Neste prisma, não existe um preconceito vincado contra os/as sociólogos/as, nomeadamente porque não só a formação académica é valorizada, como também existe uma maior consciência da necessidade de que são necessárias intervenções ancoradas em estudos e diagnósticos sociais. O grande desafio, embora seja transcendente a outros países, é evitar que exista uma censura (real ou camuflada) do que constitui uma crítica social sociologicamente fundamentada, muitas vezes mal-entendida como crítica ao governo, partido, ou, inclusive, ao próprio país.
Logo, a associação entre ideologia e sociologia não é tão evidente em Angola, embora se deva considerar o seu contributo para a desmistificação da sociedade pós-colonial, para a construção de uma identidade angolana, ou para o conhecimento da diversidade e da multiplicidade étnica e territorial, por exemplo. Por sua vez, torna-se imperiosa uma maior qualificação do ensino superior, no sentido de fomentar profissionais que sejam capazes de levar realmente a sociologia da academia para o terreno, para não se cair (também aqui) no risco da sua feudalização. Note-se, igualmente, que embora os sucessivos governos (do mesmo partido, leia-se) tenham integrado sociólogos/as nos seus quadros, também nunca foi assaz evidente uma mudança radical em termos de políticas públicas ou ruturas com diretrizes políticas previamente determinadas. 
Contrariamente ao que acontece no Brasil ou em Portugal, em Angola a sociologia não é entendida enquanto ideologia de esquerda, nem como algo que seja incompatível com o mercado de trabalho no setor lucrativo. Contudo, não se pode afirmar que a situação seja mais favorável, ou que as mesmas ameaças e riscos que pesam sobre a sociologia nos outros dois países também não estejam presentes. 

Ricardo M Marques

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