A ideologia assume-se como uma das principais
características apontadas à sociologia, não obstante a ideologia estar presente
em todas as ciências, profissões e, fundamentalmente, políticas públicas.
Embora não se possa afirmar que uma orientação ideológica está ausente em
todos/as aqueles/as que trabalham na área da sociologia (principalmente, mas
não só, nos/nas que trabalham na investigação) a verdade é que todo o
fundamento da qualquer ciência se encontra no critério da objetividade e do método.
Contudo, sublinhe-se, a objetividade não constitui sinónimo de neutralidade,
muito menos de ausência de pensamento e ação crítica, de intervenção social e,
dito desta forma, de intervenção política (não sendo, neste caso, sinónimo de
intervenção partidária).
Contudo, a grande crítica apontada à sociologia
prende-se com o alinhamento com ideologias de esquerda, sendo esta visão ancorada,
principalmente, na influência do “popular” Karl Marx, um dos pais fundadores,
tanto em termos teóricos e académicos, tanto em termos de paradigma de
investigação. Esta é uma questão complexa. A ser verdade que existe uma relação
próxima com as ideologias de esquerda – nomeadamente quando elas enquadram uma
lógica de rutura com o poder dominante e com o status quo da desigualdade que
grassa em todas as sociedades – não se pode afirmar que a sociologia seja uma
ciência de esquerda. Também não se pode, igualmente, afirmar que todos/as
aqueles/as que trabalham na área sejam pessoas de esquerda. A verdade, é que
tal como a sociologia se foi desenvolvendo assente em transformações e ruturas,
também o que define uma área política como sendo de esquerda, de direita, ou de
centro, não é clara. Direita e esquerda transformaram-se e reconfiguraram-se,
existindo diversas esquerdas e direitas, assim como inúmeras variantes
indeterminadas.
Embora se encontrem poucos/as sociólogos/as que
alinhem, ou que manifestem, claramente, uma perspetiva que seja de direita – ou
seja, que perfilhem valores “mais próximos” do que constitui a direita nos dias
de hoje, nomeadamente o “liberalismo económico sem intervenção do Estado” ou, por
exemplo, um “ultranacionalismo”, devemo-nos lembrar que a sociologia é uma
ciência interdisciplinar que enquadra tanto a economia, quanto a ciência
política, entre outras. O supra e super citado Karl Marx é um autor estudado em
economia, sem ninguém afirmar que a economia é uma ciência de esquerda. Por sua
vez, Adam Smith (liberalismo), ou Charles Maurrras (nacionalismo) são autores
estudados em muitos cursos de sociologia, sem isso significar, mais uma vez,
que a abordagem de diferentes ideias/teorias/ideologias constitui doutrinação
ou a assunção de uma linha ideológica (de direita, neste caso).
Da mesma forma, tanto o nacionalismo, quanto uma menor
intervenção do Estado, estão presentes (direta ou indiretamente) em muitos
programas de partidos “ditos” de esquerda. Os/as sociólogos/as, assim como
os/as cientistas políticos/as, antropólogos/as, economistas, a par de todas/as
que trabalham na vasta área interdisciplinar que constitui as ciências sociais,
ostentam perspetivas diferentes acerca da sociedade e do que devem ser as
políticas sociais e a intervenção do Estado – sendo, mais uma vez, pouco
relevante se alinham ideologicamente/partidariamente com este ou com aquele
partido ou cor política.
A grande ameaça à sociologia não é essa. Não se deve,
antes de mais, confundir a sociologia enquanto ciência com a intervenção
pública/política deste ou daquele sociólogo/a. Ou seja, existindo método e
objetividade científica o diagnóstico pode ir ao encontro de uma ideologia, mas
nunca pode ser uma ideologia a fundamentar um diagnóstico.
Ricardo M Marques

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