Os “Is” da identidade sociológica – interdisciplinaridade



Empregabilidade sociológica 2 – Os “Is” da identidade sociológica – interdisciplinaridade
A empregabilidade sociológica é uma preocupação premente e eixo central da ambiguidade: como é que alguém que é afetado de forma incisiva pelo desemprego e pela precaridade laboral pode estudar e solucionar o problema do desemprego? As pessoas desta área convivem todos os dias com essa dupla problemática – na sua esfera individual, subjetiva, e no âmbito da esfera social, comunitária, social e objetiva.
Se atentarmos à realidade sociológica, tanto em Portugal, quanto no Brasil como em Angola, podemos encontrar algumas especificidades, a maior parte, embora em graus menores, sujeitas ao paradoxo da ambiguidade. Podemos, em traços sucintos, enumerar algumas das mesmas, naquilo que designamos os “i” da identidade sociológica.

Interdisciplinaridade
A interdisciplinaridade é uma das principais vantagens da sociologia. De facto, a investigação sociológica recorre a outras disciplinas, tanto das ciências exatas, como a matemática e a estatística, das ciências económicas (considerando, contudo, que a economia também é uma ciência social), como das outras ciências sociais e do conhecimento humano (psicologia, filosofia, antropologia, etc.).
Coloca-se a seguinte questão: de que forma uma ciência que se desenvolve em articulação com outras, cuja identidade é assente nesse pressuposto, evita a diluição dos/as seus profissionais num cenário de empregabilidade cada vez mais fluído e disperso?
Embora a interdisciplinaridade seja uma das principais vantagens da formação em sociologia, esta transforma-se, ou é transformada, muitas vezes, numa desvantagem. Umas das principais razões prende-se com a questão cada vez mais premente da especialização versus polivalência. No cenário atual, observamos um cada vez maior aparecimento de novas profissões e áreas de trabalho a par do surgimento de novos cursos, sejam licenciaturas, sejam mestrados ou doutoramentos, sejam cursos técnicos ou de formação profissional, mas cujo grau de especificidade é cada vez maior. Por sua vez, os conhecimentos e a formação que são exigidos atualmente a alguém que procura emprego – ou as competências, se optarmos pela terminologia da “moda” – extravasam o que se estuda numa licenciatura ou mestrado. Muitas vezes os requisitos que as instituições públicas e o mercado procuram quando pretendem contratar alguém (mesmo que esteja especificado “alguém de sociologia”) prendem-se com o domínio de ferramentas tecnológicas, software, social media, marketing, vídeo, ferramentas relacionais, etc., e não propriamente com conhecimentos teóricos (ou, inclusive, práticos) que tenham sido obtidos numa licenciatura.

A par das questões e preconceitos de género, idade, cor, nacionalidade, redes de conhecimento, experiência, etc., que estão sempre presentes (mesmo quando mascaradas) quando se procura emprego – e nisto nem todas as entidades que empregam pessoas de sociologia constituem exceções à regra – a interdisciplinaridade (principal âncora da sociologia) acaba por ser entendida como a necessidade de se “tocar muitos instrumentos”, quer por força do mercado – ou seja, não existindo nenhum consenso na dualidade especialização/polivalência, são exigidas competências cada vez mais díspares e imprevisíveis; quer por força da resposta ao desemprego – ou seja, as pessoas licenciadas em sociologia e em ciências sociais veem-se, muitas vezes, forçadas a procurarem formações e competências noutras áreas como forma de sobreviverem ao desemprego num mercado cada vez mais instável, precário e, lá está, imprevisível.

Ricardo M Marques


Comentários