Estudos sobre o desemprego e as
condições laborais são comuns na sociologia e nas ciências sociais. As transformações
tecnológicas, pós e pré industrias, pós ou hipermodernas, constituem um campo
de estudo privilegiado da sociologia, estando presentes nas abordagens de Marx,
Durkheim, Richard Sennett, entre outros, mais ou menos conhecidos, incógnitos ou
famosos. Mais do que isso, são omnipresentes à generalidade de qualquer área de
estudo, independentemente de níveis micro, meso ou macro, ou a pesquisas mais
ou menos “particularizadas” ou globalizadas.
O que pretendemos aqui abordar
não é isso. A questão que trazemos é esta: como pode uma ciência, cujos
profissionais são extremamente afetados pelo desemprego e pela falta de oportunidades,
resistir e manter-se dinâmica?
Se consideramos a sociologia nos
países de língua oficial portuguesa observamos lógicas diferentes, não obstante
os traços em comum. Dito de outra forma: o desemprego e a escassez de oportunidades
de emprego assumem-se como o denominador comum da equação. No inverso, dentro
do que se pretende discutir, salientam-se as diferenças.
Se considerarmos, a título de exemplo,
Angola, Portugal e Brasil, observamos que, embora exista um tronco comum, a
realidade social induz (ou produz) cenários de empregabilidade diferentes aos
profissionais da sociologia em cada um dos três países.
No caso de Angola, a sociologia
tem despertado um cada vez maior interesse nos jovens que acedem às
universidades. Sendo um país que emergiu de um longo processo de colonização, a
que se seguiu uma sangrenta guerra fratricida, a democracia ainda é recente e
carece de consolidação. A sociologia emerge, assim, no âmbito de uma perspetiva
crítica tendente à erradicação da exclusão e das desigualdades sociais
agravadas, num país onde o fosso entre os muito ricos e os extremamente pobres
é dos maiores do mundo. Contudo, embora essa perspetiva crítica esteja a
sedimentar-se, ainda não existe suficiente abertura política para que o debate
social possa ser de âmbito alargado e para que a ação social seja realmente
eficaz. Pode, também, questionar-se: em quais países é que essa ação é realmente
eficaz? Adiante: o desemprego entre as pessoas que tiram sociologia em Angola carece
de indicadores de mensuração. Saliente-se, no entanto, que o acesso ao ensino superior
ainda constitui um fator de mobilidade ascendente, particularmente porque só
está ao acesso de uma minoria. Não obstante a crise socioeconómica com que o
país se depara atualmente, esta tendência ainda está presente. Relativamente à
área de trabalho, ao contrário do que acontece em Portugal e no Brasil, existem
muito poucos projetos e centros de investigação. Logo, a empregabilidade “direta”
da área restringe-se às poucas oportunidades docentes numa universidade ou num
politécnico. A maior procura de profissionais com esta formação surge do
mercado das empresas, nomeadamente quando estas pretendem profissionais para
exercerem a atividade de Técnicos ou Gestores de Recursos Humanos, embora as empresas
tendam a privilegiar profissionais com licenciaturas em direito ou em gestão de
recursos humanos.
No caso do Brasil, as ciências
sociais têm uma força pungente que emerge da consciência das discrepâncias
entre as classes e os grupos sociais, ricos e desterrados, mulheres e homens,
brancos e negros, entre outros. Embora essas mesmas discrepâncias existam e
também sejam bastante acentuadas em Angola (assim como em Portugal), a
sociedade brasileira (à custa de muitas cisões e conflitos ideológicos)
consegue ser mais recetiva ao debate e ao papel que a sociologia deve ter para
a sua solução. Numa lógica simplista, por ser um país demográfica e
geograficamente maior do que Portugal ou Angola seria suposto que a empregabilidade
de um profissional das ciências sociais – devido, nomeadamente, à existência de
mais universidades, centros de investigação, associações, empresas, etc. – fosse,
também ela, maior. Isso não acontece a priori. Ou seja, embora as pessoas com
formação nesta área consigam percecionar um mercado de trabalho com maiores
possibilidades, as oportunidades de emprego real escasseiam, não só em termos
do que seria a empregabilidade “direta “(docência, pesquisa, etc.), como também
da “indireta” – ou seja, as ofertas a profissionais destas áreas por parte das
empresas são reduzidas. Reformulando: as ofertas de emprego são poucas,
independentemente da área de formação. Analistas de Pesquisa, Pesquisadores/as,
mas fundamentalmente Professores/as do ensino médio constituem as áreas de
oportunidade “diretas”. A agravar a situação o quadro social e as políticas
públicas atuais (por força do conflito ideológico) são algo hostis à sociologia
(querendo, inclusive, retirá-la do ensino médio, a par da filosofia) constituindo
outro dos fatores que agrava a empregabilidade dos profissionais no Brasil.
No caso de Portugal, invocando de
uma forma inversa a mesma lógica simplista, seria suposto que a empregabilidade
dos profissionais de sociologia fosse maior, nem que fosse pelo simples facto
de ser demográfica e geograficamente menor do que o Brasil. Embora ainda sejam
notórios os efeitos da crise das políticas de austeridade ditadas pela chamada “Troika”
(FMI/BCE/CE) o clima socioeconómico atual é menos instável do que no Brasil ou
em Angola. Mas a empregabilidade sociológica é bastante reduzida. Quais os
motivos? Tal como no Brasil, as oportunidades diretas surgem do meio académico,
particularmente através de bolsas de investigação ou de doutoramento, função
pública (cada vez menos), ou atividades relacionadas com centros de formação
profissional. Tal como no Brasil, as ameaças à sociologia são prementes. As
bolsas têm prazo limitado e colocações na atividade docente são praticamente
inexistentes. Contudo, enquanto no Brasil os profissionais da área das ciências
sociais conseguem lecionar no ensino médio, em Portugal os profissionais
licenciados em sociologia não têm sequer oportunidades de virem a ser
professores no equivalente ensino secundário (sendo preteridos por profissionais
da área da filosofia). Mas ao contrário do que sucede no Brasil a sociologia em
Portugal não recolhe o mesmo dinamismo, seja porque os movimentos sociais têm
menos expressão, seja porque os “pactos sociais” são mais duradouros. Sendo
assim, a empregabilidade da sociologia acaba por se direcionar para atividades “indiretas”,
tais como o comércio, marketing ou outros serviços. Contudo, denota-se que são
empresas destas áreas (mais do que as das atividades “diretas”) que procuram cada
vez mais profissionais com esta formação.
A empregabilidade sociológica é
uma batalha diária onde a precariedade da grande maioria contrasta com a carreira
estável apenas acessível a uma pequena minoria. É esta discussão que
pretendemos abarcar.
Ricardo M Marques

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