Eu vi as pessoas a fazer o que tinha que ser feito
Se andares por zonas sujas, contaminadas, ser-te-á atribuído o código vermelho/
a polícia te levará para fazeres quarentena num sítio designado/
com os moradores dentro, fecham os prédios da zona encarnada a cadeado/
aqueles que possam ter o vírus são isolados, olhados de longe e com horror/
é como se tivessem lepra, deixam a comida de hospital à porta, recolhem o lixo/
fazem isso para que não morram à fome e na imundice/
– o que seria um problema sanitário –/
e forçam-nos a descarregar as apps para que tudo se compre à distância/
e ouviu-se falar de pessoas que já não saiam de casa há anos/
de pais separados de seus filhos menores, maridos apartados das mulheres/
outros morreram incógnitos no domicílio, vítimas de um suicídio lento/
Eu vi as pessoas a fazer o que tinha que ser feito/
o amarelo está numa espécie de purgatório/
um sem abrigo barrado do acesso à sociedade/
e o estrangeiro será olhado como um bárbaro, portador da variante mais agressiva do vírus/
– mesmo que o vírus aqui tenha sido originado –/
um ser fantasmático, vindo das zonas contaminadas/
perderá o emprego e será repatriado, ou então confiscam-lhe o passaporte/
por precaução, serão fechadas as fronteiras com as zonas miasmáticas, que é quase todo o mundo/
embora se alimente a ficção de que elas continuam abertas – o que é verdade, mas num só sentido/
e criar-se-ão bolhas de viagem entre as zonas puras/
e aos habitantes dessas zonas puras, desde que obedeçam, serão dados créditos sociais e cartões de consumo/
para que se distraiam nas compras e não reivindiquem a liberdade de que desfrutavam/
e os optimistas profissionais serão pagos para tecer loas a tudo isto
Pedro Dionísio (Macau)

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