"Eu vi as pessoas a fazer o que tinha que ser feito", por Pedro Dionísio (Macau)

Eu vi as pessoas a fazer o que tinha que ser feito Se andares por zonas sujas, contaminadas, ser-te-á atribuído o código vermelho/ a polícia te levará para fazeres quarentena num sítio designado/ com os moradores dentro, fecham os prédios da zona encarnada a cadeado/ aqueles que possam ter o vírus são isolados, olhados de longe e com horror/ é como se tivessem lepra, deixam a comida de hospital à porta, recolhem o lixo/ fazem isso para que não morram à fome e na imundice/ – o que seria um problema sanitário –/ e forçam-nos a descarregar as apps para que tudo se compre à distância/ e ouviu-se falar de pessoas que já não saiam de casa há anos/ de pais separados de seus filhos menores, maridos apartados das mulheres/ outros morreram incógnitos no domicílio, vítimas de um suicídio lento/ Eu vi as pessoas a fazer o que tinha que ser feito/ o amarelo está numa espécie de purgatório/ um sem abrigo barrado do acesso à sociedade/ e o estrangeiro será olhado como um bárbaro, portador da variante mais agressiva do vírus/ – mesmo que o vírus aqui tenha sido originado –/ um ser fantasmático, vindo das zonas contaminadas/ perderá o emprego e será repatriado, ou então confiscam-lhe o passaporte/ por precaução, serão fechadas as fronteiras com as zonas miasmáticas, que é quase todo o mundo/ embora se alimente a ficção de que elas continuam abertas – o que é verdade, mas num só sentido/ e criar-se-ão bolhas de viagem entre as zonas puras/ e aos habitantes dessas zonas puras, desde que obedeçam, serão dados créditos sociais e cartões de consumo/ para que se distraiam nas compras e não reivindiquem a liberdade de que desfrutavam/ e os optimistas profissionais serão pagos para tecer loas a tudo isto Pedro Dionísio (Macau)

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